bdrmm: a banda que fugiu do shoegaze para reinventar o próprio som em “Microtonic”
Quando o mundo entrou em suspensão em 2020, o álbum bedroom, estreia do quarteto de Hull bdrmm, surgiu como um bálsamo estranho: sombrio, etéreo e inesperadamente maduro para uma banda tão jovem. O nome — nascido das composições domésticas de Ryan Smith — parecia sintetizar aquele momento de isolamento global. Mas, ao mesmo tempo, apresentava um grupo que soava pronto, urgente, como se já estivesse ali há anos.
Influências de Slowdive, Radiohead, Ride e DIIV ecoavam pelas melodias arrastadas, guitarras saturadas e pedais empilhados. Com apoio do selo Sonic Cathedral, a banda foi rapidamente colocada na linha de frente de uma suposta nova onda shoegaze. Mas o rótulo, como ficaria claro depois, nunca descreveu de verdade o que bdrmm queria ser.
Depois da estreia, a banda se tornou oficialmente um quarteto (Jordan Smith, Joe Vickers, Conor Murray e Ryan Smith) e evoluiu com velocidade impressionante. O segundo álbum, I Don’t Know (Rock Action, o selo do Mogwai), provou que eles estavam em plena mutação criativa: menos guitarras óbvias, mais texturas eletrônicas, mais ambição. E um recado explícito: bdrmm não queria ser uma banda de shoegaze.
Não por rejeitar as influências — que continuam lá, no amor por atmosfera e densidade —, mas porque a banda nunca se viu presa a um único espaço sonoro. Como Jordan explica, “nós não sabíamos exatamente o que éramos no começo. Só sabíamos que gostávamos de textura. O resto veio com o tempo”.
Se bedroom foi o The Bends e I Don’t Know o OK Computer da banda, Microtonic é seu Kid A: um salto ousado em direção ao eletrônico, ao abstrato e ao emocionalmente distorcido.
Desde a faixa de abertura, Goit — com participação de Syd Minsky-Sargeant (Working Men’s Club) — fica claro que o bdrmm agora habita um futuro distópico e ruidoso, moldado tanto por pandemias quanto por inquietações internas. Guitarras se dissolvem em sínteses ondulantes, texturas granuladas e ritmos de clube escuro. Há ecos da Warp Records, da Mute, de raves britânicas clandestinas.
Faixas como “Snares” e “John on the Ceiling” misturam garage britânico com camadas de synths luminosos. Já momentos como “In the Electric Field” conectam o bdrmm ao universo de Deerhunter, enquanto “Infinity Peaking” lembra que a banda ainda sabe soar como uma banda de rock — quando quer.
O mais impressionante? Muitas dessas ideias estavam guardadas em demos antigas, esperando o momento certo para nascer. “Percebemos que qualquer coisa poderia ser bdrmm”, diz Jordan. “Era só uma questão de confiarmos nisso.”
Com Microtonic, até a relação da banda com a guitarra mudou. Joe Vickers deixou de usar o instrumento como arma de ataque e passou a tratá-lo como fonte de textura pura — mais próximo de um sintetizador do que de um riff tradicional. Reverb no máximo, granulação, camadas que flutuam como névoa digital. Tudo isso sem perder o toque humano que diferencia a banda no mar de artistas eletrônicos atuais.
A transição para o palco, porém, não foi fácil: tornar loops, samples e sequências orgânicos exigiu reinvenção. Pratos saíram; samplers entraram. A banda teve de desaprender hábitos para criar outros novos. E ver Mogwai — seus “chefes” — tocando com backing tracks sem vergonha ajudou a libertá-los. “Fez a gente perceber que tudo bem experimentar”, diz Jordan.
Ser uma banda de Hull, cidade sem uma estética musical dominante, também se tornou um trunfo. Sem a sombra de Manchester, Londres ou Glasgow, bdrmm encontrou liberdade para buscar caminhos próprios — tornando-se, ironicamente, uma das bandas mais originais do Reino Unido.
“É como ter uma tela em branco”, comenta Jordan. E talvez seja exatamente isso que Microtonic representa: uma tela nova, vibrante, inclassificável e aberta ao inesperado.
Mais do que mudar de estilo, bdrmm finalmente atingiu o que buscava desde o início: soar como bdrmm, e não como “a nova banda que lembra X ou Y”. Um grupo capaz de emocionar, assustar, confortar e surpreender — às vezes tudo ao mesmo tempo.
Se o shoegaze vive outra explosão global, isso não importa tanto. Porque, em meio a dezenas de bandas se apoiando em fórmulas, existe apenas um bdrmm — e ele escolheu seguir seu próprio caminho.
