Baxter Dury w/ Joshua Idehen – Albert Hall, Manchester: um espetáculo pulsante de carisma, poesia e eletricidade
Às vezes, duas apresentações distintas se encontram para formar algo maior do que a soma de suas partes. Foi exatamente isso que aconteceu no Albert Hall, em Manchester, onde Joshua Idehen e Baxter Dury transformaram uma noite fria de novembro em um ritual coletivo de energia, catarse e comunhão musical.
Toda a intensidade do novo álbum Allbarone se materializou diante de um público sedento — e saiu maior do que entrou.
Abrir a noite era, em teoria, missão de suporte. Para Joshua Idehen, foi um terreno para ocupar, incendiar e transformar.
Descalço, expansivo e absolutamente magnético, ele entrou no palco como um mestre de cerimônias pós-moderno — parte poeta, parte pregador, parte agitador social. “Aplaudam como se eu fosse a Dolly Parton”, provocou, já deixando claro que a cerimônia seguiria no ritmo da irreverência.
Ao lado do DJ Ludvig Parment, Idehen transformou o Albert Hall em um templo pop-litúrgico. As luzes filtradas pelos vitrais criavam uma atmosfera quase sacra para faixas que os presentes já tratavam como futuros hinos: “Illegal Hit” e “All You Can Do Is Try” ressoaram com força, enquanto o sarcástico e brilhante “Mama Does the Washing” arrancou risos, reflexões e gritos de aprovação.
Quando ofereceu abraços gratuitos ao final do set, não era performance — era síntese. Um artista em total comunhão com sua crescente legião de fãs.
Se Idehen aqueceu, Baxter Dury veio para explodir.
Dury surgiu no palco com sua postura felina, elegante e arrogante na medida certa — “o pantera de nylon”, como seus fãs gostam de chamá-lo. Blazer escorregando do ombro, gestos estudados, corpo em movimento constante: tudo nele transmite uma confiança peculiar, que roça a teatralidade mas nunca perde a autenticidade.
Sem divagações ou discursos, Baxter deixa que suas letras façam o trabalho sujo. Com Allbarone praticamente incorporado pelo público, “Alpha Dog” e “Hapsburg” já nasceram grandes, pulsando nos corpos e no chão de madeira do Albert Hall.
Para além de sua persona magnética, há uma humildade velada em Baxter — um reconhecimento de que, por trás da pose, existe a vulnerabilidade de alguém que observa a sociedade com lente ácida e coração aberto.
Antes do show, pairava no ar a curiosidade: “Eu vi o pai dele anos atrás…” — uma comparação inevitável para quem carrega o sobrenome Dury.
Mas bastaram “Aylesbury Boy” e “I’m Not Your Dog” para que até os mais céticos se rendessem. A essa altura, já não havia resquício de nostalgia: havia um artista plenamente dono de seu presente.
Com o avanço da noite, o palco virou território selvagem. O microfone virou extensão do corpo; o pedestal, poste; o blazer, uma peça de guerra sendo torcida e tensionada até seus limites.
A banda — impecável, segura, essencial — criou a moldura perfeita para que Baxter alternasse entre a sátira, a lascívia e o deboche com precisão cirúrgica.
“The Other Me”, “Kubla Khan” e “Cocaine Man” pareciam feitos sob medida para o teto alto e a acústica vibrante do Albert Hall. Quando a massa gritou “Breakfast at The Berghain!”, já não havia mais distância entre palco e plateia: era uma só criatura pulsante.
Todo show tem aquele momento em que tudo converge.
Aqui, esse momento tem nome: “Allbarone”.
É raro ver uma música recente provocar tamanho impacto imediato. O baixo, o synth, o refrão dividido em sílabas — tudo foi pensado para ser contagiante, mas nada preparou o público para a explosão coletiva que veio.
Foi o ponto em que o teto metafórico da casa realmente cedeu.
Pessoas se olhando, rindo, gritando o refrão como se já carregassem essa música há anos.
O ápice seguiu com “Schadenfreude”, som que parece ainda mais ferido, inteligente e provocador quando tocado no rescaldo eufórico de Allbarone.
A volta ao palco trouxe “Mr W4”, um respiro poético depois da tempestade — um momento em que Baxter reconhece a banda, o suporte, a noite.
Mas a celebração final veio com “Baxter (these are my friends)”, seu maior hit, que transformou o Albert Hall em uma rave emocional, de mãos levantadas, vozes uníssonas e felicidade incontida.
Baxter Dury entende o próprio público, entende o espaço que ocupa e entende o poder teatral da música que cria. Com Allbarone, ele não apenas entrega um dos discos mais marcantes de 2025: ele solidifica um momento de virada em sua carreira.
No Albert Hall, ele não evitou o holofote — ele o devorou.
E todos ali saíram tocados, suados e absolutamente convertidos.
Se esta turnê é um prelúdio, o ano pertence a Baxter Dury.


