The Mary Onettes — Treze Anos de Silêncio, 40 Minutos de Perfeição: “Sworn”
Depois de treze longos anos, The Mary Onettes retornam com Sworn, um álbum que não apenas reacende a chama do dream-pop escandinavo, mas reafirma a banda como uma das mais elegantes e emotivas do gênero. Longe de soar como um comeback tardio, Sworn é a prova de que o tempo lapidou — e não enfraqueceu — a identidade sonora do grupo.
O disco abre com uma amostra curiosa, quase desconcertante, que logo se dissolve na atmosfera brilhante e etérea de “WDWHL”. É como ser arremessado direto para um cenário Slowdive dos dias atuais: guitarras cintilantes, camadas densas e uma melodia que parece expandir o ar ao redor.
Na sequência, “Hurricane Heart” acelera o pulso, trazendo uma bateria com ecos de “Running Up That Hill”. Aqui surge um dos prazeres do álbum: como a banda incorpora pequenos acenos aos anos 80 e 90 — new wave, synthpop, indie britânico — sem nunca perder o DNA dream-pop que os consagrou. “Without This Body”, terceira faixa, amplia essa energia, mantendo o início do álbum irresistivelmente forte.
A dupla “Honest Moon” e “Slide” desacelera o ritmo e mergulha em melancolia luminosa. As referências a Nik Kershaw e às guitarras shimmery à la Slowdive fazem sentido: tudo vibra em delicadeza, enquanto Philip Ekström entrega uma das suas performances vocais mais honestas. O verso “I wanna be a part of the things I’ve done” ressoa como uma confissão madura, pesada e suave ao mesmo tempo.
O núcleo emocional do álbum chega com o trio “Tears to an Ocean”, “The Big Shake” e “Eyes Open”. Aqui o disco incendeia.
“Tears to an Ocean” é um single que arrepia — principalmente quando Ekström repete “Tears, tears, tears” e um saxofone completamente Psychedelic Furs explode no meio da música. É nostalgia em forma de equalizador, daqueles em que as luzes verdes piscam até encostar no vermelho.
“The Big Shake”, talvez o ponto mais alto do álbum, vive inteiramente nesse vermelho: linhas de baixo sedosas, melodia poderosa, refrão memorável. É um clássico instantâneo na discografia dos suecos.
“Eyes Open”, com participação de Maja Milner, surge como uma prima distante de “Ruins” (2015). A delicadeza do dueto reforça o lado mais etéreo e cinematográfico do grupo. “Dream with eyes open” vira mantra.
Na reta final, “Arp” brinca com toques à Kraftwerk, ampliando o universo sonoro sem perder coesão. A faixa-título “Sworn” é puro deslumbramento: guitarras que remetem discretamente à Cocteau Twins e batidas que evocam o drama de Kate Bush. “Stop the Melody” encerra o disco com densidade, bateria em destaque e um pequeno sample que fecha um belo arco entre início e fim.
Com produção meticulosa, arranjos ricos e um senso de nostalgia nunca óbvio, Sworn é um álbum que convida — exige — ser ouvido do começo ao fim. Em uma era de playlists fragmentadas, The Mary Onettes entregam um disco completo, coeso, emocional e brilhantemente construído. Treze anos depois, não há dúvida: ninguém faz dream-pop como eles.

