Nabeel (نبيل) dá uma nova voz ao fuzz rock
O fuzz rock acaba de ganhar um sotaque novo, íntimo e luminoso. nabeel (نبيل) — projeto do artista iraquiano-americano Yasir Razak — transforma influências de shoegaze clássico e slowcore em algo profundamente pessoal, costurando memórias, deslocamentos e descobertas sonoras em um universo próprio. Radicado na Virgínia, Razak vem emergindo como uma das vozes mais autênticas da cena alternativa atual, ampliando a linguagem do gênero sem perder o peso emocional que o move.
Em vez de se esconder atrás de pedais e camadas de distorção, nabeel usa o ruído como ferramenta de memória. Suas capas parecem fotos encontradas no fundo de uma gaveta da família; seus clipes, pequenos filmes domésticos que recuperam a trajetória que o levou de Bagdá aos Estados Unidos ainda bebê. Essa tensão entre lar, identidade e reinvenção reverbera com força no EP ghayoom – غيوم, lançado de forma independente — um trabalho que confronta sentimentos de pertencimento com lirismo e brutalidade sonora.
Na faixa de abertura, “resala – رسالة”, o artista lamenta a ausência de alguém que ainda está vivo, transformando vulnerabilidade em catarse distorcida. Em “khatil – خاتل”, ele recupera riffs pesados na tradição de Dinosaur Jr. para tratar de masculinidades herdadas; já “wasal – واصل”, o momento mais pop do EP, converte desespero existencial em refrão irresistível. Mesmo para quem não fala árabe, a emoção é imediata e transborda — e para quem quer mergulhar ainda mais fundo, Razak disponibiliza traduções completas no Bandcamp.
A crescente atenção em torno de nabeel culmina em sua estreia londrina no ICA, no dia 5 de novembro, marcando seu momento mais ambicioso até agora. Entre turnês nos EUA, obsessões por Pink e uma afeição recém-descoberta por blockbusters como Shin Godzilla, Razak mostra que seu universo é tão vasto quanto suas distorções — e igualmente humano.
Com humor afiado, memórias familiares e um senso melódico inconfundível, nabeel (نبيل) não está apenas renovando o fuzz rock: ele está reescrevendo suas possibilidades emocionais. E convidando todos a escutarem — de perto.
