PUMP UP THE VOLUME

BlogEditor's PickHighlightsLançamento de discosLatest UpdatesMust Read

Sombr – I Barely Know Her

Em sua estreia em álbum, sombr transforma o desejo adolescente em arquitetura sonora: paredes de reverberação, harmonias vaporosas e um senso teatral de grandeza emocional que parece sempre prestes a desmoronar. I Barely Know Her é o documento de um artista que saiu do quarto — literalmente — e encontrou um orçamento, um produtor veterano e a chance de expandir seus devaneios íntimos para algo mais amplo, mais luminoso, mais cheio de pose.

Formado na escola de artes LaGuardia, Shane Michael Boose chega ao seu primeiro disco como quem já entendeu o jogo da nostalgia digital: aquele universo de corações partidos, sintetizadores enevoados e bateria em 4/4 que consagrou nomes como Cigarettes After Sex, Del Water Gap e toda uma geração do “indie do desejo eterno”. Mas sombr não quer exatamente subverter nada — ele quer elevar o drama. E, por vezes, consegue.

Em I Barely Know Her, tudo soa grande, mas jamais cortante. Ele parece saber exatamente onde quer nos atingir — no espaço entre o peito e a lembrança turva de um amor mal curado —, mas raramente se arrisca a despir a produção o suficiente para oferecer uma verdade nua. É o “yearncore” elevado à categoria de manifesto: camadas de vocais que se entrelaçam como um cobertor quente, melodias que parecem suspensas no ar e letras que orbitam a mesma tensão entre idolatria e ressentimento.

Na contagiante “We Never Dated”, sombr abraça o pop com maior coragem, empurrado por suas harmonias polifônicas e um refrão que poderia tranquilamente figurar em playlists de soft-indie global. Já “Back to Friends” tem aquele brilho de classicismo juvenil, como se Brian Wilson tivesse passado uma tarde trancado em um estúdio de Logic Pro mexendo em presets.

Quando deixa o confessional para trás e abraça o melodrama por completo, sombr encontra sua forma mais interessante. O single “12 to 12”, com seus synths cintilantes e energia oitentista, abre espaço para um artista mais performático e menos refém da própria sensibilidade — quase um Brandon Flowers ainda aprendendo a ousar. Feita para pistas imaginárias, é provavelmente sua composição mais carismática até agora.

Há momentos, porém, em que sombr ultrapassa os limites da homenagem para encostar perigosamente na imitação. “Undressed” acerta em cheio o timbre emocional que tornou “Sweater Weather” um hit perene — talvez até demais. “Canal Street”, por sua vez, replica a cadência, o pulso e até a ambiência estrutural de “Scott Street”, evocando inevitáveis comparações com Phoebe Bridgers. Tudo isso pode ser lido como reverência de um artista jovem, mas também como falta de vontade de se arriscar fora da cartilha.

O calcanhar de Aquiles de sombr continua sendo a sua relação curiosamente infantilizada com figuras femininas. Suas letras frequentemente oscilam entre o adoração ingênua e um ressentimento incômodo, como se o romance fosse sempre um campo minado onde só ele sai ferido. Linhas como “I don’t want the children of another man to have the eyes of the girl I won’t forget” se tornaram virais — mas pela estranheza, e não pela profundidade. Em outros momentos, sombr tenta aliviar a mão com trocadilhos fofos (“You’re a ten and I’m a man that needs a dime”), mas tropeça na linha tênue entre charme e constrangimento.

O fechamento “Under the Mat” é onde tudo parece se alinhar: o arranjo expansivo, a vulnerabilidade menos roteirizada, o senso narrativo de quem está disposto a reconhecer a complexidade de um fim — e não apenas a dor. Mesmo com versos que escorregam, a música revela um sombr mais maduro, quase épico, que transforma um apartamento minúsculo em cenário de tragédia romântica à la Springsteen.

I Barely Know Her não reinventa o indie atmosférico, mas mostra um artista em transição — alguém que, ao expandir seus horizontes técnicos, ainda procura a coragem para expandir seus horizontes emocionais. É irregular, por vezes excessivamente derivado, mas também cheio de lampejos promissores e refrões que grudam como memória afetiva.

Se o próximo passo de sombr for menos reverência e mais revelação, ele pode deixar de ser apenas o novo garoto do “yearncore” para se tornar um nome realmente seu.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *