Black Rebel Motorcycle Club celebra 20 anos de Howl e revisita sua veia mais indomável
Duas décadas depois de surpreender fãs e indústria com o intimista e incendiário Howl, o Black Rebel Motorcycle Club olha para trás com a mesma inquietação que moldou sua trajetória. O trio celebra o aniversário do álbum com uma nova turnê e uma reedição deluxe, mas também com reflexões afiadas sobre arte, resistência e o estado atual da música.
Lançado em 2005, Howl marcou um ponto de ruptura: após turbulências internas e o temor de serem engolidos pelas expectativas do mercado, o BRMC optou por ignorar qualquer manual de sobrevivência. Trocaram a distorção grave por timbres crus, espirituais e encharcados de folk, criando um trabalho que parecia mais um manifesto do que um “terceiro disco”.
Hoje, tocando o álbum na íntegra pela primeira vez, Robert Levon Been vê essas músicas assumirem um novo significado — não como peças de um momento conturbado, mas como entidades próprias que o público adotou ao longo do tempo. “É como servir algo que já não pertence só a nós”, resume.
A banda também mira o presente. Para Been, a música vive em um cenário desigual, um “deserto pós-apocalíptico” onde a classe média artística desaparece entre extremos de miséria e riqueza. Ainda assim, ele acredita em uma necessidade urgente de arte honesta — aquela que nasce da fricção, não da conveniência.
Fontaines D.C., Geese e outros nomes recentes aparecem entre seus favoritos, justamente por fugirem das embalagens fáceis.
Fiel ao espírito combativo de sua carreira, o BRMC também voltou ao debate político ao denunciar o uso não autorizado de sua música pelo governo dos EUA — um gesto que reforça sua convicção de que artistas precisam desafiar estruturas, não temê-las.
Sem planos rígidos, mas com a química renovada após anos de escritas paralelas, o grupo volta à estrada decidido a honrar Howl como ele merece: com volume, vulnerabilidade e uma recusa contínua em caber em qualquer caixa.
