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Entre memória e presente, Blood Orange encontra beleza no “entre” de Essex Honey

Há discos que se apresentam como narrativas lineares; Essex Honey prefere o caminho mais instável e, por isso mesmo, mais honesto. O novo trabalho de Dev Hynes soa como um sonho recorrente: fragmentado, circular, povoado por ecos que retornam quando menos se espera. Nada aqui se encerra completamente. Ideias, timbres e versos reaparecem como pensamentos intrusivos, criando a sensação de que o luto — tema subterrâneo do álbum — não é um evento datado, mas um estado de oscilação permanente.

Desde “Look at You”, com sua manta de acordes abafados, falsete etéreo e batidas de baixo contidas, o disco estabelece um vocabulário emocional que reaparece em faixas como “Somewhere in Between”. O violoncelo áspero que encerra “Thinking Clean” retorna discretamente em “Vivid Light”, enquanto a frase devastadora “I don’t want to be here anymore” surge em “Westerberg” quase como um ruído mental, interrompendo a serenidade aparente. O luto, aqui, não se manifesta em explosões dramáticas, mas em lampejos existenciais. Quando Hynes canta “It’s nothing like they said, it’s somewhere in between”, com uma surpreendente leveza vocal, ele traduz uma verdade desconfortável: às vezes, há prazer na melancolia.

Esse movimento interno é reforçado por um jogo de referências musicais que funcionam menos como nostalgia e mais como assombração. Lorde ecoa Elliott Smith em “Mind Loaded”, enquanto Tariq Al-Sabir e Caroline Polachek revisitam a sensibilidade da Durutti Column em “The Field”. Em “Westerberg”, Hynes cita explicitamente o gesto de revisitar o passado — “Regressing back to times you know” — enquanto acena para “Alex Chilton”, do Replacements. Não é um retorno acolhedor: há calor, mas também distância crítica. Hynes observa sua formação como quem caminha por uma casa antiga onde já não mora, mas ainda reconhece cada rangido.

Em faixas como “The Last of England”, o disco se torna quase epistolar. Hynes parece cantar diretamente para a mãe, misturando memória e ausência com uma delicadeza cortante. Em outros momentos, o diálogo é interno: conselhos cifrados surgem em “Life”, enquanto “Vivid Light” captura o artista preso entre a necessidade de criar e a paralisia do luto. São cenas íntimas, quase banais, que ganham força justamente por evitarem grandiloquência.

A voz de Hynes — esse falsete luminoso e controlado — é o eixo de equilíbrio do álbum. Ele não dramatiza como Sampha ou FKA twigs, nem busca a crueza textural de serpentwithfeet. Em vez disso, transforma dor em sonho. O reverb espesso de “Countryside” faz da saudade uma espécie de devaneio, enquanto em “The Train (King’s Cross)” a confissão de incerteza soa mais contemplativa do que desesperada. A instabilidade emocional nunca se resolve; ela apenas se desloca.

No fim, Essex Honey reafirma aquilo que define o Blood Orange: essa tensão constante entre arquivo e presente, memória e agora. A diferença é que, pela primeira vez, o presente surge tão estranho e misterioso quanto o passado. Hynes não romantiza o retorno ao lar — ele o estranha. E talvez seja justamente aí que o disco encontra sua verdade mais profunda: às vezes, casa é um território estrangeiro, e aprender a habitá-lo exige aceitar o desconforto do “entre”.

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