Seeing Is Forgetting ( Elori Sax / Henri Solomon )
Jazz, ambient music, minimalismo, música eletrônica experimental. Seeing Is Forgetting é assim, e é construído como um campo de forças lento, no qual o tempo não avança em linha reta; ele se desloca em ondas quase imperceptíveis. As canções se organizam como um “sistema climático” delicado: pequenas variações de densidade, de cor harmônica, de presença. Nada se impõe. Tudo emerge.
Os sopros (saxofone barítono e clarinete baixo) não assumem exatamente o papel de melodia ou de textura. Eles orbitam. Por vezes lamentam em frases longas de registros mais baixos; em outros momentos, sobem discretamente, e passam a coexistir em um outro plano com os sintetizadores. Em muitos trechos, não fica claro onde termina uma coisa e começa outra.
Os timbres eletrônicos, moldados em camadas suaves e ondulantes, evitam qualquer gesto excessivo. Eles constroem superfícies não estáticas que não se transformam de forma evidente. São gradientes. Pequenas mudanças internas que, acumuladas, alteram completamente o ambiente.
A música é de economia rigorosa: poucas notas, poucas intervenções, e uma atenção extrema às microvariações de dinâmica, articulação e espaço. O resultado é uma sensação de proximidade física, tátil. O som que quer ocupar o mesmo espaço que o corpo. Aqui e ali, dá para ouvir o clique das chaves (as “teclas”) dos instrumentos de sopro, revelando a presença física do gesto.
As estruturas não soam pré-definidas. Crescem, oscilam, se reorganizam. Algumas faixas insinuam um padrão rítmico mais reconhecível, outras dissolvem qualquer referência métrica clara. Em todas, há uma recusa do clímax tradicional. Quando algo se intensifica, é por densidade e não por volume ou velocidade.
Há também uma ambiguidade curiosa entre improvisação e inevitabilidade. Certos trechos soam como descobertas em tempo real; outros, como se sempre tivessem existido daquela forma, apenas aguardando serem revelados. Essa tensão sustenta o disco inteiro.
O efeito final não é nem de transporte, nem de contemplação passiva. É mais próximo de um estado de presença contínua, no qual cada pequena alteração ganha peso. Quando Seeing Is Forgetting, a nona e última faixa que dá nome ao álbum, termina, o que permanece é um tipo de resíduo perceptivo, como se o ouvido tivesse sido reconfigurado para notar aquilo que normalmente escapa.
Elori Saxl é compositora e trabalha com sintetizadores e música eletrônica; Henry Solomon é saxofonista e clarinetista, com atuação ligada ao jazz e à improvisação. Juntos, operam aqui como um duo.
https://elorisaxl.bandcamp.com/album/seeing-is-forgetting
