“Décollage”, de Requin Chagrin: entre a vertigem íntima e a expansão da memória
Há discos que avançam — e há discos que flutuam. Décollage, novo trabalho de Requin Chagrin, pertence decididamente à segunda categoria. Não é um álbum que busca impacto imediato; ele se infiltra, cria atmosfera e, quando você percebe, já reorganizou seu campo emocional.
Sob a condução de Marion Brunetto, o projeto abandona qualquer resquício de urgência juvenil mais crua dos primeiros registros e abraça uma maturidade que não significa contenção — mas sim precisão. Aqui, cada reverberação de guitarra, cada camada de sintetizador com perfume oitentista, parece posicionada com uma consciência quase arquitetônica do espaço.
O gesto inicial do disco — esse retorno físico e simbólico ao quarto da adolescência — não é mero artifício narrativo. Ele define o eixo do álbum: Décollage é menos sobre partir do que sobre revisitar. Ao se isolar do ruído externo, Brunetto encontra uma linguagem que equilibra nostalgia e clareza, como se estivesse reconstruindo suas próprias referências a partir de dentro.
Musicalmente, o álbum se ancora em uma dream pop que dialoga abertamente com a new wave, mas sem se tornar refém dela. Há ecos que remetem ao legado de Indochine — não por acaso, com a proximidade de Nicola Sirkis —, mas Décollage nunca soa derivativo. Pelo contrário, existe um esforço evidente em manter uma identidade coesa, quase isolada, como um sistema fechado onde tudo responde à mesma gravidade estética.
Essa coesão se revela também no método: Brunetto assume praticamente todas as funções, da composição à execução, o que poderia resultar em um disco autocentrado — mas aqui gera o oposto. Há uma unidade sensível entre voz, arranjos e produção que raramente se encontra em trabalhos mais fragmentados.
Faixas como “Parachute” sintetizam bem essa proposta: melodias acessíveis, quase solares, atravessadas por uma melancolia persistente. Já “For You” expande o espectro emocional do disco, funcionando como uma espécie de eixo afetivo, onde imagem e som se entrelaçam com naturalidade cinematográfica.
O aspecto mais interessante, porém, está na tensão entre o lo-fi e o polido. Gravado entre equipamentos caseiros e estúdios lendários, Décollage preserva imperfeições — chiados, texturas, pequenas rugosidades — enquanto alcança uma amplitude sonora que o impede de soar íntimo demais. É nesse equilíbrio que o álbum encontra sua força: ele é ao mesmo tempo próximo e inalcançável.
Liricamente, Brunetto opta por um deslocamento estratégico. As canções nascem de experiências pessoais, mas são filtradas em imagens abertas, permitindo que o ouvinte projete suas próprias narrativas. Essa recusa em se fixar no confessional direto aproxima o disco de uma tradição mais imagética da pop francesa, onde o sentimento importa mais do que a literalidade.
No fim, Décollage não é um álbum sobre chegar a algum lugar específico. É sobre sustentar o movimento — essa suspensão delicada entre passado e presente, entre impulso e contemplação. Requin Chagrin não reinventa sua linguagem, mas a refina ao ponto de fazê-la parecer inevitável.
E talvez seja isso que define o disco: a sensação de que ele sempre esteve ali, esperando apenas o momento certo para emergir.

