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Seelfeel – Sol.Hz

“Envelhecer” flertando com o que é novo é sempre louvável, mas não redime ninguém. No fim das contas, o que realmente importa é, quando a gente termina de ouvir um álbum novo e pensa: “nossa, amei!”, ou qualquer coisa assim. O Seefeel não tenta parecer novo em Sol.Hz. Faz justamente o contrário. Continua perseguindo uma ideia sonora iniciada há mais de trinta anos, como se essa busca jamais tivesse sido interrompida. Talvez este seja o momento em que ela alcança sua forma mais rarefeita.

Se você espera melodias marcantes, grandes progressões harmônicas ou explosões emocionais, a chance de se frustrar é enorme. Quase nada aqui foi feito para chamar atenção imediatamente; o disco opera justamente na periferia da nossa percepção. Às vezes você sente que a faixa está começando, mas ela já roda há um minuto. Em outras, parece ter terminado, mas continua ali respirando. Enquanto ouvia Sol.Hz pela primeira vez, a palavra que não saía da minha cabeça era “limiar”. Quase tudo existe num estado intermediário. As guitarras já não soam exatamente como guitarras, os sintetizadores raramente assumem o protagonismo, os vocais de Sarah Peacock aparecem mais como temperatura ou textura do que como linguagem propriamente dita, embora isso sempre tenha sido verdade no Seefeel, e os beats nunca chegam a organizar completamente o espaço, mas também jamais desaparecem. É um disco que habita permanentemente esse intervalo entre presença e ausência.

Um dos aspectos mais fascinantes está na maneira como a banda administra o tempo. Não existe desenvolvimento tradicional. O que há são deslocamentos mínimos de densidade: um ruído que ganha volume lentamente, um grave que leva dois minutos inteiros para ocupar a sala, uma reverberação que altera discretamente o equilíbrio da faixa. Você percebe que as coisas mudaram, mas dificilmente consegue dizer quando mudaram. Isso aproxima Sol.Hz muito mais dos processos da natureza do que de uma composição narrativa. Deve ser parecido com observar a neblina cobrindo uma montanha ou a maré avançando em câmera lenta da câmera lenta.

Em algumas reviews, o álbum é descrito como dub. Tecnicamente faz sentido. Os graves profundos, os delays e o enorme espaço entre os elementos remetem diretamente a essa tradição. Sempre houve muito de dub na música do Seefeel. Aqui, porém, o grupo parece menos interessado na linguagem do dub do que na física do som. O grave não empurra a música para frente; modifica a própria arquitetura do espaço onde a escuta acontece. Em vários momentos, Sol.Hz evoca o melhor de Succour e (CH-VOX), mas sem qualquer nostalgia. Não revisita os anos 1990; simplesmente dá continuidade a uma conversa que parecia ter ficado em suspenso, retomada em Everything Squared e Squared Roots e levada aqui ao seu ponto mais extremo. 

É justamente essa sensação de continuidade que torna Sol.Hz um disco tão peculiar. Em vez de surgir como reinvenção, ruptura ou atualização de linguagem, ele aparece como mais um capítulo de uma pesquisa iniciada há décadas. Mais do que uma sucessão de mudanças de estilo, a discografia do Seefeel revela um processo contínuo de depuração. Lá vem história… A banda que lançou Quique e os EPs da fase Too Pure já havia se transformado profundamente quando chegaram Starethrough e Fracture/Tied, os primeiros lançamentos pela Warp, mudança consolidada em Succour. A partir dali, guitarras perderam protagonismo, as batidas tornaram-se mais discretas ou mais ásperas, as estruturas mais econômicas e a música passou a existir em um estado cada vez mais rarefeito. Não houve nostalgia nem tentativa de recuperar a identidade dos primeiros discos. O Seefeel preferiu seguir em frente, mesmo correndo o risco de deixar para trás parte do público que havia se apaixonado justamente por aquele som inicial.

A única exceção significativa veio com o álbum homônimo de 2011. Nele, a banda experimentou um caminho diferente, recuperando uma energia mais física, com baterias mais presentes e guitarras mais incisivas. O desvio, porém, foi temporário. Os trabalhos seguintes retomaram a direção construída desde a fase Warp: uma música cada vez mais econômica, rarefeita e concentrada nas menores transformações do timbre. Olhando para a discografia como um todo, fica difícil enxergar o Seefeel como uma banda que simplesmente muda de estilo. O que muda é o grau de radicalidade com que persegue a mesma pergunta: até onde uma música pode ser reduzida sem deixar de existir como música?

Sol.Hz representa o ponto mais extremo dessa trajetória. Em vez de acumular elementos, a banda trabalha por subtração. O que permanece são timbres, espaços, pequenas variações e uma atenção quase obsessiva à matéria sonora. O álbum não parece interessado em expandir o universo do Seefeel, mas em escavá-lo por dentro, retirando tudo o que não seja essencial até restar uma forma mínima e profundamente viva.

Essa mesma trajetória ajuda a explicar outra sensação produzida pelo disco: seu deslocamento temporal. Se tivesse sido lançado décadas atrás, provavelmente seria descrito como “o som do futuro”. E não seria difícil imaginá-lo sendo recebido, em algumas décadas, como um álbum contemporâneo. Sua relação com o futuro não nasce da tentativa de parecer tecnológico ou visionário, mas da eliminação gradual de quase tudo o que denuncia uma época específica.

Muitos discos que, em seu tempo, pareciam futuristas envelheceram justamente porque carregavam as marcas estéticas do período em que foram feitos. Ao reduzir sua linguagem ao essencial, Sol.Hz torna-se surpreendentemente difícil de ser situado no tempo. Talvez esse seja o gesto mais futurista do Seefeel: produzir uma obra que permaneça permanentemente deslocada do presente.

Um parágrafo final, meio perdido, para dizer que Sol.Hz funciona muito melhor quando ouvido do começo ao fim, com tempo e atenção. Numa escuta casual, pode parecer discreto, quase estático. Mas, quando você decide habitar esse som por aproximadamente 40 minutos, começa a perceber uma infinidade de microacontecimentos: pequenas alterações de textura, profundidade e densidade que passariam despercebidas no corre-corre do dia a dia. O disco não pretende reinventar a música eletrônica nem romper com a própria história do Seefeel. Seu grande mérito está em demonstrar que uma investigação iniciada há mais de três décadas ainda pode produzir uma obra profundamente imersiva e artisticamente relevante. Depois de tudo isso, chamar o Seefeel de ambient, shoegaze, dub ou IDM parece insuficiente. Eles fazem, simplesmente, “música Seefeel”, com o perdão do clichê.

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