AX – Vulcanalia
Anthony Di Franco, o “AX”, descreve Vulcanalia como uma tentativa de construir “um edifício colossal em som” e consegue descrever sua música muito bem. Ao longo de pouco mais de quarenta minutos, o álbum ergue lentamente uma arquitetura sonora feita de guitarras distorcidas, feedback e sintetizadores, eliminando qualquer vestígio de ritmo ou percussão para deixar apenas um fluxo contínuo de matéria sonora em constante transformação.
Os títulos das quatro faixas, Elagabal, Jupiter Best and Greatest, Aedes Saturnus e Vulcanalia, revelam a fascinação de Di Franco pela religião e pela mitologia romana. Essa monumentalidade histórica encontra um equivalente musical. Tudo aqui soa austero, pesado e solene, uma trilha para caminhar entre templos abandonados ou acompanhando, à distância, a lenta decomposição de um mundo antigo.
Existe algo profundamente “doom metal” em Vulcanalia, embora o álbum nada tenha a ver com o gênero, além, talvez, da escuridão. Não há bateria, riffs, vocais ou explosões de intensidade. O peso nasce de outro lugar: da lentidão, da densidade e da maneira como enormes massas sonoras deslocam-se quase imperceptivelmente. Cada faixa cresce com paciência, acumulando camadas sem jamais recorrer ao impacto imediato.
Anthony Di Franco escreveu que, ao criar AX em 1993, queria combinar guitarras distorcidas e feedback com eletrônicos e sintetizadores, retirando completamente os elementos rítmicos. Três décadas depois, impressiona perceber como Vulcanalia realiza exatamente essa proposta.
Vulcanalia pode ser ouvido como uma experiência meditativa, mas construída por um caminho completamente diferente do que normalmente se entende por “meditativo”. Não existe conforto, apenas a disposição de permanecer tempo suficiente para que pequenas transformações passem a adquirir significado. A sustentação prolongada dos sons, a escassez de eventos e as mudanças quase imperceptíveis exigem uma forma de escuta menos orientada pela expectativa e mais pela permanência. Para alguns ouvintes, esse estado pode adquirir um caráter contemplativo ou mesmo próximo do transe; para outros, produzirá apenas inquietação ou desconforto.
É justamente aí que o álbum produz seu efeito mais interessante. Quando desaparecem o ritmo e os acontecimentos que normalmente organizam nossa escuta, também começa a desaparecer nossa maneira habitual de perceber o tempo. Em vez de acompanhar uma sequência de eventos, passamos a habitar um presente contínuo, onde as mudanças deixam de ser medidas por batidas ou melodias e passam a ser percebidas na própria textura do som. O tempo deixa de ser algo que conduz a música; torna-se uma dimensão que se revela lentamente dentro dela.
Vulcanalia dificilmente converterá quem nunca encontrou prazer nesse universo sonoro. Mas, para quem já desenvolveu uma relação profunda com o drone, AX entrega um trabalho de enorme consistência e beleza. Ele não reinventa a linguagem; demonstra compreendê-la profundamente. AX realiza sua proposta com absoluta convicção.
https://nashazphone.bandcamp.com/album/vulcanalia
