Como nasceu o símbolo da paz: a história de um dos ícones mais reconhecidos do mundo
Poucos símbolos gráficos atravessaram gerações e fronteiras com tanta força quanto o símbolo da paz. Presente em manifestações, camisetas, bandeiras, cartazes, obras de arte e campanhas humanitárias desde o fim dos anos 1950, o famoso círculo com três linhas internas tornou-se um emblema universal da não violência, da esperança e da união entre os povos. O que poucos sabem é que seu criador, o designer britânico Gerald Holtom, nunca imaginou que sua obra ultrapassaria o objetivo original e se transformaria em um dos ícones visuais mais importantes da história contemporânea.
Holtom criou o símbolo em 1958, quando foi convidado a desenvolver a identidade gráfica da Campaign for Nuclear Disarmament (CND), organização britânica criada para protestar contra a corrida armamentista e o crescimento do arsenal nuclear durante a Guerra Fria. Pacifista convicto, Holtom havia sido objetor de consciência durante a Segunda Guerra Mundial, recusando-se a participar do conflito por acreditar que a violência jamais poderia ser a solução.
Seu projeto foi concebido a partir do alfabeto semafórico, sistema de comunicação realizado com bandeiras. As linhas diagonais representam a letra N, enquanto a linha vertical corresponde à letra D, formando as iniciais de Nuclear Disarmament (Desarmamento Nuclear). Todo o conjunto foi inserido dentro de um círculo, representando o planeta Terra e reforçando a dimensão global da mensagem.
Mais tarde, o próprio Holtom revelou que o desenho possuía um significado ainda mais profundo. Segundo ele, a figura lembrava uma pessoa de braços caídos em desespero diante da ameaça de uma guerra nuclear. Embora tenha nascido de um sentimento de angústia, o símbolo rapidamente adquiriu um significado oposto: passou a representar esperança, diálogo e a possibilidade de resolver conflitos sem recorrer à guerra.
Ao longo da década de 1960, o emblema foi adotado por inúmeros movimentos sociais em diferentes partes do mundo. Tornou-se presença constante nos protestos contra a Guerra do Vietnã, nas manifestações pelos direitos civis, nos movimentos estudantis e em campanhas pacifistas, tornando-se um dos principais símbolos da contracultura. Sua simplicidade permitiu que pessoas de diferentes idiomas e culturas compartilhassem uma mesma mensagem sem a necessidade de palavras.
Mesmo após mais de seis décadas, o símbolo continua sendo utilizado em manifestações pela paz, campanhas ambientais, movimentos humanitários e ações em defesa dos direitos humanos, consolidando-se como um dos maiores exemplos de como o design pode transcender seu contexto original e ganhar significado universal.
O legado de Gerald Holtom voltou a ser reconhecido oficialmente em 2025, quando o designer recebeu uma importante homenagem na cidade de Hythe, no condado de Kent, onde viveu entre 1962 e 1985. Em 28 de fevereiro, foi inaugurada uma placa azul comemorativa (Blue Plaque) na fachada da casa onde morou por mais de vinte anos, reconhecendo sua contribuição para a história do design e do ativismo pela paz.
A homenagem foi organizada pela Hythe Civic Society, que destacou a importância histórica de Holtom para a cidade. Segundo Sally Chesters, uma das responsáveis pelo projeto, talvez ele seja “a pessoa mais especial” entre todas as figuras históricas que viveram em Hythe. Ela também observou que o reconhecimento ganha ainda mais significado diante do cenário internacional atual, marcado por conflitos e tensões geopolíticas.
O presidente da Hythe Civic Society, Paul Naylor, afirmou que divulgar o trabalho de Holtom representa uma parte importante da história local e ajuda a preservar a memória de alguém cuja criação continua influenciando milhões de pessoas em todo o mundo.
A cerimônia também contou com a presença de Rebecca Holtom, filha do designer. Ela lembrou que, durante a infância, considerava perfeitamente normal o fato de seu pai ter criado um símbolo como forma de ativismo. Apenas na adolescência, durante os anos 1970, percebeu a verdadeira dimensão de sua obra e a força que aquele desenho havia adquirido em escala mundial. Segundo Rebecca, espera que seu pai seja lembrado por seu ativismo firme, claro e destemido.
Mais de sessenta anos após sua criação, o símbolo da paz permanece atual. Em um mundo ainda marcado por guerras, crises humanitárias e ameaças nucleares, o desenho criado por Gerald Holtom continua representando um ideal universal de convivência pacífica, diálogo e esperança — prova de que um simples projeto gráfico pode atravessar gerações e se tornar uma das imagens mais reconhecidas da história.
