The Strokes – Reality Awaits
Poucas bandas do século XXI carregam um legado tão pesado quanto o The Strokes. Desde o lançamento de Is This It em 2001, cada novo álbum do quinteto nova-iorquino foi recebido sob a sombra de um dos discos mais influentes da história do rock moderno. Durante anos, a expectativa do público e da crítica parecia sempre a mesma: descobrir se Julian Casablancas, Nick Valensi, Albert Hammond Jr., Nikolai Fraiture e Fabrizio Moretti conseguiriam recriar a magia que redefiniu o indie rock no início dos anos 2000. O problema é que essa cobrança ignorava um fato evidente: os Strokes nunca quiseram permanecer a mesma banda. Se Room on Fire refinou a fórmula original, First Impressions of Earth expandiu seus horizontes, Angles e Comedown Machine dividiram opiniões justamente por desafiarem expectativas, enquanto The New Abnormal encontrou um delicado equilíbrio entre nostalgia e renovação.
Agora, seis anos depois, Reality Awaits representa um novo ponto de inflexão. Mais do que um retorno, o sétimo álbum de estúdio simboliza a libertação definitiva do grupo em relação ao próprio passado e estabelece um novo capítulo artístico que, embora certamente divida parte do público, confirma que os Strokes continuam muito mais interessados em evoluir do que em repetir fórmulas consagradas.
Gravado na Costa Rica com produção de Rick Rubin, o disco apresenta nove faixas que recusam qualquer caminho previsível. Desde os primeiros segundos de “Psycho Shit”, fica evidente que a banda não pretende entregar um sucessor espiritual de The New Abnormal. A abertura aposta em sintetizadores atmosféricos, guitarras discretas e uma construção lenta que culmina em uma explosão sonora pouco convencional para os padrões do grupo. Logo depois, “Dine N’Dash” amplia essa sensação de estranhamento ao alternar passagens de pós-punk, spoken word, mudanças abruptas de dinâmica e intervenções vocais carregadas de efeitos digitais. É um início ousado que funciona como uma declaração de intenções: os Strokes já não estão interessados em agradar quem ainda espera outro “Last Nite” ou “Reptilia”.
A maior transformação de Reality Awaits está justamente na incorporação definitiva da estética desenvolvida por Julian Casablancas com os Voidz. Durante muito tempo, o projeto paralelo serviu como laboratório para todas as ideias mais experimentais do vocalista, enquanto os Strokes permaneciam relativamente presos a uma estrutura mais tradicional. Desta vez, porém, essas fronteiras desaparecem completamente. O Auto-Tune, elemento que já vinha aparecendo timidamente em trabalhos anteriores, torna-se uma ferramenta estética permanente, não como mero recurso de correção vocal, mas como instrumento expressivo que modifica a textura emocional das canções. Para alguns ouvintes essa escolha poderá soar excessiva; para outros, representa exatamente o tipo de risco artístico que impede uma banda veterana de se tornar apenas uma máquina de nostalgia.
O mais interessante é que, ao contrário do que muitos poderiam imaginar, essa aproximação com o universo dos Voidz não descaracteriza os Strokes. Pelo contrário: o álbum encontra um equilíbrio surpreendente entre experimentação e acessibilidade. As guitarras continuam desempenhando papel central, mas agora surgem envoltas em novas camadas de sintetizadores, efeitos eletrônicos e arranjos pouco convencionais. Nick Valensi e Albert Hammond Jr. seguem formando uma das duplas mais sofisticadas do rock contemporâneo, abandonando a obsessão pelos riffs imediatos em favor de linhas melódicas mais complexas, enquanto Nikolai Fraiture e Fabrizio Moretti entregam talvez a seção rítmica mais consistente da carreira recente da banda, sustentando mudanças constantes de andamento sem jamais comprometer a fluidez das músicas.
O grande protagonista, no entanto, continua sendo Julian Casablancas. Durante boa parte da última década, havia a impressão de que sua criatividade estava concentrada quase exclusivamente nos Voidz e que os Strokes funcionavam apenas como uma obrigação contratual. Reality Awaits desmonta completamente essa narrativa. Casablancas soa revitalizado, divertido e absolutamente comprometido com o projeto. Sua interpretação alterna falsetes delicados, vocais graves, trechos quase falados, explosões emocionais e momentos carregados de ironia, construindo talvez sua performance mais espontânea desde os primeiros discos da banda.
As letras seguem o mesmo caminho imprevisível, misturando críticas ao capitalismo tardio, comentários políticos, humor absurdo, referências à cultura pop e reflexões existenciais sem jamais oferecer respostas fáceis. Em “Going Shopping”, um groove ensolarado inspirado no yacht rock serve de pano de fundo para uma crítica mordaz ao consumismo e à destruição ambiental. Já “Going To Babble On” surge como a faixa mais emocional do álbum, equilibrando desencanto político e esperança em uma melodia irresistível que remete aos momentos mais inspirados da fase clássica da banda. “Lonely In The Future” talvez seja o melhor retrato do atual momento criativo de Casablancas: divertida, caótica, repleta de referências aparentemente desconexas e construída sobre uma estrutura musical que desafia constantemente as expectativas do ouvinte. Enquanto isso, “The Fruits of Conquest” recupera o clima sombrio de Angles, mas com uma produção muito mais refinada e segura, revelando como a banda finalmente aprendeu a transformar suas influências mais experimentais em composições verdadeiramente envolventes.
Outro dos grandes méritos de Reality Awaits está na produção assinada por Rick Rubin. Em vez de tentar domesticar as ideias mais extravagantes do grupo, o produtor permite que elas floresçam sem abrir mão da clareza sonora. Cada instrumento encontra espaço suficiente para respirar e mesmo os momentos mais caóticos preservam uma organização impressionante. O resultado é um álbum denso, repleto de detalhes escondidos que se revelam apenas após repetidas audições, recompensando quem dedica tempo para absorver suas inúmeras camadas.
Nem tudo, entretanto, alcança o mesmo nível de inspiração. A faixa de encerramento, “Tyrants On The Mellow Moon”, estende excessivamente algumas ideias que já haviam sido exploradas ao longo do disco e acaba funcionando mais como um exercício de experimentação do que como uma conclusão memorável. Sua estrutura dispersa e a insistência em determinadas escolhas vocais diminuem o impacto do encerramento e representam o único momento em que a influência dos Voidz parece sobrepor-se ao equilíbrio cuidadosamente construído nas demais faixas.
Ainda assim, trata-se de uma pequena imperfeição em um trabalho cuja maior qualidade reside justamente na coragem de desafiar expectativas. Em uma época em que tantas bandas históricas sobrevivem exclusivamente da nostalgia, os Strokes escolhem seguir pelo caminho mais difícil: reinventar-se novamente. Reality Awaits não é um disco interessado em revisitar o passado nem em conquistar ouvintes através de fórmulas familiares. É um álbum que assume riscos, provoca, desafia e, principalmente, reafirma que a criatividade do grupo permanece intacta mesmo após 25 anos de carreira.
Ao abandonar definitivamente a sombra de Is This It, os Strokes fazem algo ainda mais raro do que repetir um clássico: mostram que continuam capazes de surpreender. Reality Awaits é um disco que desafia o ouvinte, mas também recompensa quem aceita entrar em seu universo. Talvez não seja o álbum mais imediato da carreira da banda, porém é, sem dúvida, um dos mais ambiciosos, criativos e estimulantes desde a estreia. Mais do que provar que os Strokes ainda têm algo a dizer, ele demonstra que o futuro da banda continua tão imprevisível quanto fascinante.
