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PUMP UP THE VOLUME

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Austin TV transforma o luto em espaço, silêncio e música em Ma

Há uma delicadeza incomum na maneira como o Austin TV transforma sentimentos difíceis em música. Em Ma, a banda mexicana parte de uma experiência marcada pela perda para construir um dos trabalhos mais atmosféricos de sua trajetória. O resultado não é um disco interessado em dramatizar o sofrimento, mas em explorar suas diferentes formas: a ausência, a memória, o silêncio e aqueles momentos de suspensão em que ainda estamos tentando compreender o que aconteceu.Há discos que tentam explicar uma experiência e há discos que preferem criar um espaço para que o ouvinte possa senti-la. O novo álbum do Austin TV, pertence claramente à segunda categoria. É um trabalho construído a partir do luto, mas que não se entrega à tristeza de maneira literal. Ao contrário: transforma a ausência em intervalo, o silêncio em matéria musical e a memória em movimento.

O próprio título concentra essa ideia. Em espanhol, ma pode funcionar como uma forma afetiva de dizer mãe. No conceito japonês de ma, por outro lado, a palavra está relacionada ao espaço, ao intervalo e à pausa — aquele momento aparentemente vazio que, na realidade, está carregado de possibilidades. É justamente nesse território entre presença e ausência que o Austin TV constrói seu novo trabalho.

O álbum foi composto durante o processo de luto pela morte de duas mulheres importantes para integrantes da banda. Essa informação poderia facilmente conduzir a um disco excessivamente explicativo ou sentimental. Não é o que acontece. Ma não transforma a dor em narrativa convencional. Ele a transforma em atmosfera.

O Austin TV sempre trabalhou com a ideia de que uma música instrumental não precisa necessariamente de palavras para contar uma história. Em Ma, essa característica ganha uma dimensão ainda mais profunda. Guitarras, texturas eletrônicas, ruídos, silêncios e mudanças de dinâmica funcionam como diferentes estados emocionais. Há momentos em que a música parece avançar lentamente, quase como se estivesse procurando uma saída; em outros, explode em camadas de guitarras que carregam uma intensidade difícil de traduzir em palavras.

A influência do post-rock está evidentemente presente, mas seria reducionista colocar Ma simplesmente dentro de uma fórmula do gênero. O Austin TV entende que a repetição, o crescendo e a explosão sonora só funcionam quando existe algo acontecendo no interior dessas estruturas. Aqui, os arranjos parecem respirar. As músicas têm espaço para crescer, recuar e permanecer suspensas.

Em determinados momentos, a relação com bandas como o japonês MONO se torna perceptível, especialmente na maneira como as guitarras são utilizadas para construir paisagens emocionais. Mas o Austin TV não soa como uma cópia dessa tradição. Há uma identidade própria na maneira como o grupo mistura essas expansões instrumentais com elementos eletrônicos, passagens mais lúdicas e intervenções de voz.

Os fragmentos falados são particularmente importantes. Em vez de conduzir o ouvinte pela mão, eles funcionam como pequenas fissuras dentro da estrutura instrumental. São vozes que aparecem e desaparecem, deixando mais perguntas do que respostas. E isso combina perfeitamente com a proposta de Ma: o álbum não quer necessariamente ser decifrado.

Essa escolha também faz com que o disco funcione melhor quando ouvido como um conjunto. Ma possui uma coesão que vai além da simples sequência de faixas. Existe uma lógica interna entre tensão e repouso, entre ruído e silêncio, entre movimento e suspensão. É como se cada música ocupasse um determinado espaço dentro de uma arquitetura maior.

Isso diferencia o álbum de Rizoma, lançado em 2023 e responsável por marcar o retorno do Austin TV após um longo intervalo. Rizoma tinha a importância histórica do reencontro e apresentava novas possibilidades para uma banda que já havia construído uma trajetória singular. Ma, porém, parece menos interessado em provar que o grupo ainda é capaz de fazer música relevante e mais disposto a aprofundar aquilo que sempre esteve no centro de sua identidade.

Depois de mais de duas décadas de carreira, o Austin TV não precisa recorrer à velocidade ou à grandiosidade para chamar atenção. Ma entende que uma pausa pode ser tão expressiva quanto uma explosão. Que uma guitarra sustentada por alguns segundos pode carregar tanto significado quanto uma parede sonora. E que o silêncio entre duas notas também pode fazer parte da composição.

É nesse ponto que o conceito do ma japonês deixa de ser apenas uma explicação para o título e passa a funcionar como princípio musical do álbum.

O luto, afinal, também é feito de intervalos. Existe o momento imediatamente posterior à perda, quando tudo parece interrompido, e existe o longo período em que a vida precisa aprender a conviver com aquilo que não está mais presente. Ma encontra sua música justamente nesse espaço.

Mas o disco não é exclusivamente sombrio. Há passagens mais leves, texturas sintéticas e momentos quase brincalhões que impedem a experiência de se transformar em um bloco uniforme de melancolia. Essa alternância é fundamental. A memória não é composta por uma única emoção, e o Austin TV parece compreender isso muito bem.

O resultado é um álbum emocional sem ser manipulador, conceitual sem ser pretensioso e experimental sem perder a capacidade de comunicação.

Dentro da história do post-rock mexicano, o Austin TV ocupa uma posição singular. A banda ajudou a ampliar as possibilidades do gênero em um cenário no qual esse tipo de música nunca teve o mesmo espaço comercial de outras vertentes do rock. Ao longo dos anos, construiu uma linguagem própria e uma relação particular com seu público.

Ma acrescenta mais um capítulo importante a essa trajetória.

É um disco sobre a perda que, paradoxalmente, encontra sua maior força naquilo que permanece. Nas lembranças, nos sons, nos espaços vazios e nas relações que continuam existindo mesmo depois da ausência.

O Austin TV não tenta preencher esse vazio.

Prefere transformá-lo em música.

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