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Paul Banks fala sobre a vida em Berlim e a influência da cidade no novo álbum do Interpol

Vocalista revela como a arquitetura brutalista, os deslocamentos de bicicleta e a experiência de viver na Alemanha influenciaram seu processo criativo em This Mirror Weighs a Ton.

Durante mais de duas décadas, o Interpol esteve fortemente associado a Nova York e à retomada do rock de guitarras no início dos anos 2000. Com o lançamento de Turn On the Bright Lights (2002), a banda ajudou a definir a estética e o som de uma geração, combinando guitarras angulares, baixo marcante, bateria precisa e os vocais graves de Paul Banks.

Agora, enquanto o grupo apresenta seu novo álbum, This Mirror Weighs a Ton, o vocalista vive uma fase diferente, longe dos arranha-céus de Manhattan. Radicado em Berlim, Banks encontrou na capital alemã uma nova rotina e um ambiente que, mesmo indiretamente, passou a fazer parte de seu processo de composição.

Em entrevista à revista The Berliner, o músico falou sobre a mudança para a Alemanha, sua fascinação pela arquitetura brutalista, a vida cotidiana na cidade e as decisões que ajudaram a tornar o novo trabalho mais pesado e intenso.

De Nova York a Berlim

A mudança para a Alemanha aconteceu por razões pessoais. Durante a pandemia, a esposa de Banks, que é alemã, estudava em Edimburgo, na Escócia. O músico viajou para visitá-la justamente no dia em que as restrições de viagem entraram em vigor e acabou permanecendo no país por cerca de seis ou sete meses.

Quando ela terminou os estudos e decidiu procurar trabalho em Berlim, Banks resolveu acompanhá-la. Ele já gostava da cidade e acabou estabelecendo ali sua nova residência.

A adaptação, entretanto, trouxe alguns desafios. Apesar de falar espanhol e francês, o vocalista admite que seu alemão continua bastante limitado. Entre as experiências que mais chamaram sua atenção está o comportamento dos alemães nas interações cotidianas, que ele descreve como mais direto e, às vezes, próximo da grosseria — uma característica que considera engraçada quando comparada à cordialidade mais expansiva dos americanos.

Até mesmo as idas ao supermercado se tornaram parte do choque cultural. Para Banks, os pequenos detalhes da vida cotidiana revelam diferenças que dificilmente seriam percebidas durante uma visita turística.

Arquitetura brutalista e inspiração fotográfica

Além da música, Banks mantém interesse pela fotografia e pela arquitetura. Em Berlim, passou a fotografar edifícios brutalistas, atraído pela aparência imponente e pela relação pouco convencional dessas construções com o espaço urbano.

Entre os exemplos que despertaram sua atenção estão o Bierpinsel, uma estrutura arquitetônica de formato incomum, o edifício Bayer e o ICC, antigo centro internacional de congressos da cidade.

O músico se interessa particularmente pela maneira como essas construções parecem ter sido concebidas para impor sua presença, em vez de transmitir acolhimento. Essa característica, segundo ele, torna o brutalismo especialmente fascinante.

A relação entre espaço físico e criação artística também aparece em sua rotina. Banks mora em Schöneberg e costuma pedalar cerca de 25 minutos até o local onde trabalha, na região da Invalidenstraße. Durante o trajeto, escuta as músicas em desenvolvimento e frequentemente encontra novas ideias.

A bicicleta, portanto, não serve apenas como meio de transporte. O percurso pela cidade tornou-se parte do próprio método de composição.

Um novo capítulo para o Interpol

Embora Berlim tenha se tornado importante em sua vida pessoal e criativa, Banks fez questão de evitar que a distância entre os integrantes prejudicasse o processo de composição do Interpol.

No álbum anterior, The Other Side of Make-Believe (2022), o vocalista escreveu boa parte do material enquanto vivia em Edimburgo. Para o novo trabalho, a banda decidiu voltar a se reunir fisicamente em Manhattan, onde realizou sessões de composição.

Depois desses encontros, Banks retornou a Berlim e escreveu a maior parte das letras. As gravações vocais também aconteceram na capital alemã, no JRS Studios.

A estratégia permitiu combinar o trabalho coletivo realizado em Nova York com o ambiente em que o vocalista passou a viver.

O resultado, segundo Banks, apresenta diferenças deliberadas em relação ao disco anterior. A intenção era recuperar uma dinâmica de criação em que os músicos pudessem tocar juntos, experimentar volumes diferentes e desenvolver as canções no mesmo espaço.

Mais peso, guitarras e sintetizadores

Uma das mudanças destacadas pelo vocalista é a sonoridade mais pesada do novo álbum. No trabalho anterior, muitas ideias vocais foram desenvolvidas em um apartamento silencioso, com Banks gravando referências em seu computador. Dessa vez, ele voltou a trabalhar no mesmo ambiente que o baterista Sam Fogarino, o que permitiu explorar uma interpretação vocal mais intensa.

O produtor Andrew Wyatt também teve papel importante nesse processo. Além de contribuir com sintetizadores, ajudou Banks a explorar novas possibilidades vocais, funcionando como uma espécie de orientador durante as gravações.

Outra decisão foi permitir que Brad Truax, baixista que acompanha a banda em turnê, participasse mais diretamente da composição das linhas de baixo. Com isso, Banks pôde concentrar mais atenção em suas partes de guitarra.

A presença maior dos sintetizadores também representa uma mudança de perspectiva. Durante um período, o vocalista preferiu evitar a inclusão de teclados depois que as músicas já estavam prontas, especialmente para preservar o espaço das composições de Daniel Kessler. Agora, ele considera que os sintetizadores podem acrescentar profundidade à sonoridade sem necessariamente encobrir as guitarras.

A participação de Wyatt ajudou a incorporar essas texturas ao processo criativo desde uma etapa mais inicial.

A influência de Antics e a evolução da banda

A entrevista também aborda a relação entre o novo álbum e o repertório antigo do Interpol. A banda havia celebrado os 20 anos de Antics (2004), segundo disco de estúdio do grupo, com uma apresentação em Berlim na qual tocou o álbum integralmente.

Lançado dois anos depois de Turn On the Bright Lights, Antics consolidou a identidade do Interpol e apresentou músicas como “Evil”, “Slow Hands” e “C’mere”, ampliando o alcance da banda sem abandonar a atmosfera sombria que marcou sua estreia.

A revisitação desse repertório acontece em um momento em que Banks parece mais aberto a experimentar com a estrutura sonora do grupo. A maior presença de teclados, a abordagem vocal mais expressiva e o peso das gravações apontam para uma banda que procura novas possibilidades sem descartar os elementos que a tornaram reconhecível.

A mudança de cidade, por si só, não explica a direção do novo álbum. Mas a rotina de Banks em Berlim — entre a arquitetura, a fotografia, a bicicleta e o trabalho em estúdio — oferece um contexto diferente para compreender essa fase.

Depois de mais de vinte anos associado a Nova York, o vocalista encontrou na capital alemã um novo lugar para viver e compor. E, embora o Interpol continue ligado à identidade sonora que construiu desde o começo dos anos 2000, This Mirror Weighs a Ton surge de um processo em que a experiência pessoal, a colaboração entre os músicos e a busca por maior intensidade tiveram um papel decisivo.

Fonte: The Berliner — “Banking On It: Interpol’s Frontman on Living in Berlin”. Entrevista com Paul Banks sobre sua vida na Alemanha e o processo de criação do novo álbum do Interpol.

1. Paul Banks — foto de Makar Artemev

Interpol: The Other Side of Make-Believe review – a subtle change in temperature | Interpol | The Guardian

2. Interpol ao vivo

Interpol atrae a 160 mil fans en su concierto en el Zu00f3calo de la Ciudad de Mu00e9xico

3. Interpol — Paul Banks no palco

Interpol | The Guardian

4. Interpol — Turn On the Bright Lights

Interpol: Turn On The Bright Lights: Black Vinyl - Steadfast

5. Arquitetura brutalista em Berlim

GERMANY-ARCHITECTURE-BIERPINSEL

O último álbum do Interpol é This Mirror Weighs a Ton, lançado em 28 de agosto de 2026.

Interpol - This Mirror Weighs a Ton | Rough Trade - (2LP - Transparent Red / Signed Print, 2LP - Black, 2LP - Rojo Perlado (Edicion Espanola), CD, 2LP - Transparent Red) | Rough Trade

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