Glasvegas retorna com o hino “Degüello” e anuncia primeiro álbum em seis anos, ‘Airy Fairy’
James Allan fala sobre superar as frustrações do último disco, encontrar tranquilidade e transformar experiências pessoais em novas canções que conectam sua infância, a vida atual e as esperanças para o futuro.
O Glasvegas está de volta com “Degüello”, seu primeiro lançamento inédito em seis anos. A faixa apresenta o caminho para Airy Fairy, quinto álbum de estúdio da banda escocesa, que chega em 2 de abril de 2027 pela Modern Sky UK. Em entrevista à NME, publicada em 27 de outubro de 2026, o vocalista James Allan falou sobre o processo criativo do novo trabalho, as dificuldades enfrentadas durante a produção do antecessor Godspeed e a relação pessoal com as músicas que compõem o disco.
Com uma sonoridade épica e agridoce, “Degüello” recupera elementos característicos do Glasvegas: melodias expansivas, intensidade emocional e uma abordagem grandiosa do indie rock. O título vem de uma palavra espanhola associada à ideia de degola ou execução, mas Allan explica que encontrou o termo em um filme antigo exibido na televisão e passou a utilizá-lo como uma metáfora para aspectos menos positivos de sua própria personalidade.
“Eu estava usando mais como uma expressão abrangente para as coisas que não são tão boas na minha personalidade: meu mau temperamento, meu mau humor”, explicou o cantor à NME. A canção, porém, representa uma tentativa de mudança. Segundo Allan, trata-se de seu plano para se tornar alguém melhor, embarcando em uma jornada para se transformar em um “arco-íris colorido”.
A escolha de “Degüello” como primeiro single também passou por discussões dentro da banda. Allan contou que diferentes músicas foram consideradas para apresentar o álbum, mas a sugestão do guitarrista Rab Allan acabou prevalecendo. Responsável frequentemente pela definição dos repertórios dos shows, Rab é descrito pelo vocalista como alguém que acredita saber o que agrada ao público.
Um disco feito para superar as frustrações
Airy Fairy surge depois de um período em que o processo de gravação de Godspeed, lançado em 2021, trouxe dificuldades e frustrações para James Allan. Para o novo trabalho, o grupo decidiu contar com ajuda em determinadas etapas técnicas, permitindo que os integrantes concentrassem mais energia na música e na experiência de trabalhar juntos.
O vocalista admitiu que algumas tarefas ligadas à engenharia de som não eram seu ponto forte. Ele brincou que digita usando apenas um dedo e que costuma esquecer onde os cabos foram conectados. Em vez de insistir em atividades que não lhe traziam satisfação, a banda procurou uma abordagem mais colaborativa.
O resultado, segundo Allan, foi um ambiente mais positivo e uma experiência coletiva mais prazerosa. Essa mudança de atitude parece fundamental para compreender o espírito do novo álbum, que o cantor descreve como um trabalho mais maduro e conectado à sua própria identidade.
O vocalista também contou que não costuma saber explicar exatamente de onde vêm suas melodias e letras. Muitas vezes, uma palavra, uma imagem ou uma frase ouvida casualmente acaba se transformando em música. Para ele, as canções parecem encontrar seu caminho até o momento certo, cabendo ao artista reuni-las e apresentá-las ao público.
“Gostaria que nossa música significasse alguma coisa para quem a escuta”, afirmou. “Se ao menos uma pessoa ouvir uma música deste álbum e se conectar com ela, então tudo terá valido a pena.”
O significado de ‘Airy Fairy’
O título do álbum remete a uma expressão inglesa usada para descrever alguém sonhador, distraído ou pouco prático. Allan contou que, durante a infância, costumava interpretar essa característica como algo negativo, especialmente porque seus boletins escolares frequentemente o descreviam como um sonhador que tinha dificuldade para prestar atenção às aulas.
Com o passar dos anos, porém, o cantor passou a aceitar melhor esse aspecto de sua personalidade. Ele recordou que a distração também o acompanhou em outras fases da vida, inclusive quando jogava futebol profissionalmente. Ainda hoje, admite que costuma se atrasar e brinca que sua cozinha está parcialmente pintada de azul-cobalto.
Para Allan, essas características não precisam ser vistas apenas como defeitos. Elas fazem parte de quem ele é, e aceitar essa identidade tornou-se um elemento importante de sua relação consigo mesmo.
Essa reflexão também atravessa as letras de Airy Fairy. O vocalista descreve o álbum como um retrato de sua maneira de enxergar o mundo, construído a partir de experiências, lembranças e expectativas pessoais. O fio condutor das canções conecta sua infância, a vida que leva atualmente e aquilo que espera encontrar no futuro.
A identidade do Glasvegas permanece intacta
Desde o surgimento da banda, o Glasvegas desenvolveu uma identidade própria dentro do indie rock britânico. O grupo combina melodias emotivas, guitarras intensas e uma abordagem dramática que ajudou a diferenciá-lo de outros nomes que ganharam destaque na mesma época.
Questionado sobre o que define essa identidade, Allan apontou justamente a personalidade e o estilo do grupo. Para ilustrar a ideia, mencionou uma frase do filme Forrest Gump sobre a dificuldade de distinguir onde o céu termina e a Terra começa. Para ele, essa sensação de fronteira indefinida representa algo essencial na música da banda.
O vocalista também rejeitou a necessidade de se encaixar em uma cena específica. Ao comentar a forma como o período em que o Glasvegas surgiu passou a ser associado retrospectivamente ao chamado indie sleaze, Allan afirmou que sempre enxergou o grupo como uma ilha dentro de um país de outras bandas. A observação, segundo ele, não significa superioridade, mas a consciência de possuir uma identidade própria.
A longevidade do Glasvegas também está ligada aos laços pessoais entre seus integrantes. Allan destacou que a banda nasceu da amizade e das relações familiares, e que continua trabalhando ao lado de seus melhores amigos e parentes. Para ele, essa proximidade ajuda a explicar por que o grupo permanece ativo enquanto muitas bandas daquela geração desapareceram.
A nova geração e o futuro da música independente
Allan se diz honrado quando artistas mais jovens afirmam ter sido influenciados pelo Glasvegas. Para ele, saber que suas músicas incentivam alguém a escrever, tocar guitarra, pintar ou explorar qualquer outra forma de expressão é uma das recompensas mais importantes de uma carreira musical.
O cantor citou nomes como Cherry, untitled e A.S. Fanning entre os artistas que acompanhou nos últimos anos e demonstrou entusiasmo com o que está sendo produzido pela nova geração.
Sua preocupação, entretanto, está nas condições oferecidas a quem tenta construir uma carreira na música. Allan defendeu mais espaços para apresentações, remuneração justa para os músicos e investimentos que permitam que artistas, especialmente aqueles vindos de famílias da classe trabalhadora, tenham condições de continuar criando.
A questão tem um significado particular para alguém que construiu sua trajetória em Glasgow, cidade com uma longa tradição musical e uma cena de shows e festivais reconhecida internacionalmente.
Ao refletir sobre o legado do Glasvegas, Allan preferiu destacar as experiências pessoais proporcionadas pela banda: as viagens, as amizades, os momentos compartilhados com a família e a oportunidade de conhecer sua futura esposa em um festival na Suécia. Se o grupo também for lembrado por sua música, diz ele, ficará grato.
Com Airy Fairy, o Glasvegas retorna sem abandonar os elementos que definiram sua identidade, mas com uma perspectiva mais tranquila sobre o processo de criação. “Degüello” abre essa nova fase com intensidade e ambição, enquanto o álbum promete reunir diferentes momentos da vida de James Allan em um trabalho guiado pela aceitação pessoal e pela esperança.
Glasvegas — ‘Airy Fairy’: tracklist
- Degüello
- Airy Fairy
- Holiday & Travel Brochure
- My Hate Part
- Virtually Real
- TOOBIN
- Null
- Even Your Darkness Has A Light Of Its Own
- Lost In L.A.
- Geographic
Glasvegas — turnê pelo Reino Unido e Irlanda em 2027
Maio
- 1º de maio — Glasgow, O2 Academy
- 7 de maio — Newcastle, Digital
- 8 de maio — Manchester, Club Academy
- 9 de maio — Leeds, Brudenell Social Club
- 12 de maio — Nottingham, Rescue Rooms
- 13 de maio — Bristol, Thekla
- 14 de maio — Londres, The Dome
Setembro
- 9 de setembro — Belfast, Limelight 2
- 10 de setembro — Dublin, Whelan’s
- 11 de setembro — Cork, Cyprus Avenue
- 12 de setembro — Limerick, Dolan’s Warehouse
Os ingressos começam a ser vendidos em 30 de outubro de 2026, às 10h, pelo horário local.
