Sombr transforma show em San Francisco em um talk show pop sobre fama, afeto e performance
No Bill Graham Civic Auditorium, Shane Michael Boose — sob o nome Sombr — entrega um espetáculo que mistura ironia, emoção e teatralidade em doses precisas, reafirmando seu magnetismo como uma das vozes mais singulares do pop atual.
O show de Sombr em San Francisco teve ares de evento histórico. Originalmente previsto para um espaço menor, foi transferido duas vezes até chegar ao Bill Graham Civic Auditorium, uma das maiores casas da cidade — sinal claro da velocidade com que o nome de Shane Michael Boose cresce. Desde o momento em que pisou no palco, a energia parecia elétrica, correndo entre artista e público num fluxo contínuo e intenso.
O cenário remetia a um talk show vintage, com sofás, plantas e um letreiro luminoso de “Applause”, enquanto uma voz gravada do próprio Sombr fazia as vezes de apresentador. Essa mise-en-scène teatral transformou o show em algo híbrido: parte concerto, parte performance artística, parte comentário sobre a cultura de exposição digital.
A abertura com “I Wish I Knew How to Quit You” incendiou a plateia, com luzes azuis cortando o palco e o artista vestido com uma camisa metálica que refletia cada piscada dos strobes. Em seguida, “Savior” trouxe um tom quase gospel, reforçando a habilidade de Boose em transitar entre estilos e emoções. Mesmo uma breve pausa causada por um problema médico não diminuiu o ímpeto da noite.
Em um dos momentos mais íntimos, o músico empunhou o violão para cantar “Canal Street”, contando que a escreveu aos 16 anos — a mesma faixa que viralizou e o lançou na internet. O público respondeu com silêncio respeitoso, seguido de aplausos emocionados.
Um dos trechos mais comentados veio com o já famoso segmento “call your ex”. Ciente das críticas online, Sombr deu um novo tom à brincadeira: em vez de fãs, ele mesmo fingiu ligar para Selena Gomez, sendo “atendido” por Benny Blanco. A plateia foi à loucura. Era performance, humor e crítica social condensados em poucos minutos.
O auge veio com “Crushing”, quando o público assumiu o refrão e transformou o espaço em uma pista de dança coletiva. O encerramento, com “12 to 12”, selou o show como uma celebração total: luzes em espiral, fãs filmando tudo, e Sombr pulando entre sofás e instrumentos, em pura catarse.
Mais do que um concerto, Sombr construiu uma experiência multimídia sobre o que é ser um artista na era digital — vulnerável, hiperconectado e autoconsciente. Ele entende a lógica do entretenimento e a subverte com charme e inteligência.
A abertura ficou por conta de Devon Gabriella, que fez um set cheio de energia e histórias pessoais, culminando em uma bela versão de “Birds of a Feather”, de Billie Eilish.
Saindo do Bill Graham, a sensação era clara: Sombr não está apenas acompanhando seu tempo — está reinventando o pop como um espelho da nossa era.
Setlist — Sombr, Bill Graham Civic Auditorium (San Francisco, 2025)
- I Wish I Knew How to Quit You
- Savior
- We Never Dated
- Perfume
- Do I Ever Cross Your Mind
- Come Closer
- In Your Arms
- Caroline
- Would’ve Been You
- Undressed
- Canal Street
- Crushing
- Under the Mat
- Back to Friends
- 12 to 12

