🎻 A História Amarga de “Bitter Sweet Symphony”: Como o Verve Perdeu um Hino dos Anos 90 por Apenas 1.000 Dólares
Para muitos, “Bitter Sweet Symphony”, do The Verve, foi a última grande canção do Britpop — e uma das faixas mais emblemáticas dos anos 1990. No final da década, era impossível escapar dela: tocava em clubes alternativos, trilhas de filmes como Cruel Intentions, comerciais da Nike e até em jogos da seleção inglesa.
A melodia da música tem origem em um sample da versão orquestral de “The Last Time”, dos Rolling Stones, gravada pela Andrew Oldham Orchestra. Mas disputas judiciais e reivindicações abusivas de direitos autorais acabaram tirando da banda quase todos os lucros — o Verve recebeu apenas US$ 1.000 por uma das músicas mais reconhecidas de sua geração.
De onde veio a melodia
“The Last Time” foi o primeiro single assinado por Mick Jagger e Keith Richards, e alcançou o topo das paradas britânicas em 1965. Sua estrutura, porém, foi fortemente inspirada em “This May Be the Last Time”, uma canção gospel dos Staple Singers, gravada em 1954 — sem que o grupo recebesse crédito algum.
A gravação que realmente inspirou “Bitter Sweet Symphony” veio da Andrew Oldham Orchestra, um projeto do então empresário dos Stones, Andrew Loog Oldham, que lançou o álbum The Rolling Stones Songbook em 1966. O arranjo orquestral, com suas cordas marcantes e sinos tubulares, foi criado pelo compositor David Whitaker, figura prolífica que trabalhou com nomes como Nico, France Gall, Serge Gainsbourg e Simply Red.
O nascimento de um clássico moderno
Em 1997, o Verve lançou “Bitter Sweet Symphony” como faixa de abertura de seu terceiro álbum, Urban Hymns. Escrita pelo vocalista Richard Ashcroft, a música reflete sobre a monotonia e a alienação da vida cotidiana — resumida na linha “You’re a slave to money, then you die”.
O single chegou ao número 2 das paradas britânicas e permaneceu lá por três meses. Foi eleito Single of the Year pela Rolling Stone e pela NME, além de receber indicações ao Brit Awards e ao Grammy.
O videoclipe, igualmente icônico, mostra Ashcroft caminhando pelas ruas de Hoxton, em Londres, esbarrando nas pessoas sem parar — uma homenagem direta ao vídeo de “Unfinished Sympathy”, do Massive Attack.
A disputa pelos direitos
O Verve havia negociado com a Decca Records o uso de um pequeno trecho — apenas cinco notas, seis segundos — da versão orquestral de “The Last Time”, cedendo metade dos royalties. O problema é que a banda não obteve permissão de Allen Klein, ex-empresário dos Stones e dono dos direitos sobre suas gravações anteriores a 1970.
Klein processou o grupo, alegando que o uso do sample ultrapassava o acordado. O resultado: todas as receitas da música foram transferidas para ele, e os créditos de composição passaram a incluir Jagger/Richards/Ashcroft. O vocalista recebeu apenas mil dólares.
“Fui pressionado a abrir mão de uma das maiores músicas de todos os tempos”, declarou Ashcroft anos depois.
Até mesmo Andrew Oldham entrou com um processo e ganhou uma quantia simbólica — o suficiente, segundo ele, para comprar “uma pulseira de relógio apresentável”. Enquanto isso, Klein lucrava toda vez que a canção era licenciada para filmes, séries ou comerciais.
Um final mais justo
Somente em 2019, Mick Jagger e Keith Richards devolveram oficialmente os direitos autorais de “Bitter Sweet Symphony” a Richard Ashcroft.
“Foi um gesto incrivelmente generoso”, disse o cantor. “Nunca tive problema com os Stones — sempre foram a maior banda de rock do mundo. Essa atitude foi algo que realmente reafirmou minha fé na vida.”
Curiosamente, se o Verve tivesse mantido os direitos, talvez jamais tivesse permitido que a faixa fosse usada em um comercial da Nike — uma decisão que ajudou a torná-la um sucesso mundial.
A ironia do destino
Embora tenha sido inspirada por uma gravação da Andrew Oldham Orchestra, a versão do Verve — rearranjada por Wil Malone — vai muito além de um simples sample. A melodia pode ser a mesma, mas a emoção e o significado são inteiramente novos.
“Bitter Sweet Symphony” nasceu como uma reflexão amarga sobre a vida moderna, mas acabou simbolizando algo ainda maior: a luta entre a arte e a indústria, entre a criação e o controle.
E no fim, a história de Richard Ashcroft provou que, às vezes, a liberdade criativa pode valer mais do que qualquer cheque.
