Shame revela o visceral Cutthroat: um mergulho nos paradoxos e personagens da era moderna
O Shame retornou em 2025 com Cutthroat, seu quarto álbum de estúdio — e talvez o mais intenso, cru e imprevisível da carreira. Produzido por John Congleton, o disco coloca a banda londrina frente a frente com um mundo povoado por hipócritas, covardes e figuras corrompidas, explorando as contradições humanas com ironia, empatia e brutal honestidade.
O vocalista Charlie Steen mergulha em personagens imperfeitos e dilemas morais, transformando o grotesco e o contraditório em material poético. Em faixas como Quiet Life e Screwdriver, o Shame revela o lado mais sombrio das relações e da autodestruição, enquanto canções como Plaster e Nothing Better dissecam a superficialidade cotidiana com um humor ferino.
Longe de ser um álbum movido pela raiva, Cutthroat reflete uma curiosidade quase literária — influenciada por leituras de Oscar Wilde e pela busca por empatia dentro da falha humana. Steen não julga seus personagens; ele os observa, os confronta e, às vezes, ri com eles. Essa mistura de lucidez e sarcasmo é o fio condutor que sustenta um disco que transita entre o caos e a contemplação.
Sonoramente, Cutthroat captura a energia incendiária dos shows da banda, mas também se permite arriscar. Há momentos de tensão elétrica, passagens de textura eletrônica e até incursões inusitadas pela sonoridade folk e americana. Em Lampião, Steen canta em português, inspirado na lenda do cangaceiro brasileiro que dá nome à faixa — uma das mais surpreendentes e cativantes do álbum.
Com Cutthroat, o Shame reafirma sua relevância como uma das bandas mais instigantes do Reino Unido, combinando fúria, inteligência e humor em doses equilibradas. É um disco sobre o que há de mais humano — o erro, o medo, o desejo e a contradição — e sobre como rir disso tudo pode ser, no fim das contas, um ato de resistência.
