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MOIN: o ruído como linguagem, o groove como acidente feliz

Moin nunca pareceu interessado em consenso. Mesmo quando opera dentro do que, por inércia histórica, ainda chamamos de “rock”, o trio britânico trata o formato como um organismo a ser desmontado por dentro — expondo parafusos frouxos, ritmos claudicantes e guitarras em permanente estado de colapso controlado. São três músicos escrevendo “canções”, mas o termo pede aspas: em Moin, nada se estabiliza o suficiente para se tornar definitivo.

O grupo nasce do atrito. Tom Halstead e Joe Andrews passaram mais de uma década explorando, como Raime, uma música eletrônica austera e oblíqua, interessada menos em pulsação do que em matéria sonora. Seus discos soavam como estruturas industriais corroídas: cordas decompostas, percussões nervosas, sintetizadores espectrais. A entrada de Valentina Magaletti — uma das bateristas mais inventivas da música experimental contemporânea — não suaviza essa herança; apenas desloca o eixo. Onde antes havia arquitetura, agora há impacto físico.

Moot! (2021), o álbum de estreia, foi o primeiro choque. Um disco relativamente direto para os padrões do trio, mas ainda profundamente desconfortável. As guitarras uivam em registros ásperos, o clima é monocromático, e a bateria parece tocar contra — e não com — o restante da banda. Magaletti não marca o tempo: ela o implode. O resultado soa como post-hardcore dissecado em laboratório, vivo justamente por sua instabilidade estrutural.

Em Paste, Moin aprofunda o estranhamento. Samples vocais surgem como assombrações — falas interrompidas, vozes desaceleradas até a falência magnética — criando um disco menos linear, mais narrativo e paradoxalmente mais denso. A música passa a respirar por fissuras, sugerindo histórias que nunca se completam. Há algo de fantasmagórico no modo como essas vozes atravessam o som, como se a banda testasse os limites entre presença e ruína.

Essa lógica encontra novo fôlego em You Never End, quando o trio passa a convidar vozes externas não para ornamentar o som, mas para humanizá-lo. Surge ali uma estranha vitalidade: mais movimento, mais jogo corporal, até mesmo algo próximo da dança — ainda que uma dança manca, assimétrica, cheia de tropeços. Algumas faixas flertam com o techno tanto quanto com o pós-hardcore; outras abraçam o caos metálico sem abandonar o groove. É música que se contorce, mas nunca se aquieta.

As participações de Coby Sey e, sobretudo, Sophia Al-Maria funcionam como âncoras emocionais. Quando Al-Maria fala — nunca canta —, ela parece finalmente dar palavras a algo que Moin sempre comunicou por impacto e textura: estados mentais instáveis, afetos ambíguos, perguntas sem resposta. Mesmo nesses momentos de clareza, a banda se recusa ao repouso. A bateria investe, as guitarras rasgam, a forma volta a se fragmentar.

Esse processo encontra sua versão mais condensada em See/X.U.Y. (abril de 2025) e no EP Belly Up (maio de 2025). O single funciona como gatilho: “See” reapresenta Al-Maria como presença vocal quase corporal, enquanto “X.U.Y.” aposta numa repetição nervosa em que ruído e ritmo se engalfinham, evocando tanto o embate físico do pós-hardcore quanto as pulsações tautológicas da música eletrônica.

Belly Up aprofunda esse vocabulário em escala reduzida. Em pouco menos de vinte minutos, Moin realiza um exercício radical de síntese. Jazz corrosivo, post-punk descontínuo e spoken word translúcido se chocam com guitarras tratadas como matéria percussiva. A bateria de Magaletti permanece no centro — instável, imprevisível — enquanto o sax de Ben Vince adiciona um elemento de improvisação errática, tensionando ainda mais a estrutura. Nada aqui busca conforto rítmico; trata-se de manter a música em estado de fricção permanente.

Se Moot! testava os limites do formato banda e You Never End expandia suas possibilidades narrativas, Belly Up age como uma miniatura conceitual: fragmentos que se chocam, ideias comprimidas até o limite, energia canalizada sem promessa de resolução. É um manifesto em escala reduzida, mas não menos incisivo.

Moin prospera no desequilíbrio. Rock informado, techno adjacente, experimental por natureza — os rótulos escorrem por sua superfície sem nunca aderir totalmente. O que permanece é a sensação de acompanhar um grupo que entende a música como processo, não como produto. Depois de tanto ruído, tanta tensão e tantos falsos clímax, não há encerramento possível. Apenas suspensão. Não um ponto final, mas reticências.

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