Manic Street Preachers – Critical Thinking
No décimo quinto álbum de estúdio, Critical Thinking, o Manic Street Preachers faz aquilo que poucas bandas com quase quatro décadas de estrada conseguem: soar relevante sem parecer ansioso, crítico sem cair na caricatura e, sobretudo, vivo. O disco não tenta reinventar a roda — e nem precisa. Em vez disso, afia as lâminas ideológicas e emocionais que sempre definiram o grupo, aplicando-as ao mal-estar contemporâneo com lucidez e ironia.
A faixa-título já deixa claro o tom. Com Nicky Wire nos vocais, “Critical Thinking” funciona como um inventário ácido das frustrações do presente hiperconectado. O verso “Smart meters, smart water, smart fucking motorways” sintetiza o cinismo elegante que atravessa o álbum: tecnologia como promessa vazia, progresso como ruído. O electrobeat que sustenta a canção adiciona uma pulsação moderna sem descaracterizar o DNA Manics, tornando-a uma das aberturas mais fortes da discografia recente da banda.
“Decline & Fall” muda o eixo emocional. Começa contida, guiada por um piano quase solene, antes de explodir em um refrão que parece desenhado para arenas. James Dean Bradfield reassume os vocais com a segurança de quem conhece profundamente o peso da própria voz — e da própria história. É o Manics em modo hino, algo que sempre souberam fazer como poucos.
“Brushstrokes Of Reunion” aprofunda a sensação de retorno às origens. Há aqui um diálogo claro com a fase formativa da banda, evocando o espírito de Motorcycle Emptiness sem recorrer à nostalgia fácil. O baixo pulsante e os vocais carregados de emoção criam uma faixa que soa familiar e, ao mesmo tempo, surpreendentemente fresca — um lembrete de que o Manics nunca perdeu completamente o fio da própria inquietação.
O coração do álbum bate mais forte em “Hiding In Plain Sight” e “People Ruin Paintings”. Na primeira, Wire assume novamente o microfone, apoiado pela participação precisa de Lana McDonagh, entregando uma canção que respeita a tradição melódica da banda enquanto a atualiza com sutileza. Já “People Ruin Paintings” é o ponto alto inequívoco do disco: um riff de guitarra irresistível, versos afiados e uma sequência lírica quase mantra — “people ruin paintings” — que funciona como comentário cultural, político e existencial. Bradfield aqui soa incisivo, quase urgente.
Na reta final, Critical Thinking não perde fôlego. “Out Of Time Revival” e “Deleted Scenes” mantêm a coesão do álbum, enquanto Wire encerra o disco nos vocais, evocando — não por acaso — um jovem Bernard Sumner. “OneManMilitia” fecha o trabalho com dignidade e propósito, como se o Manics reafirmasse, faixa a faixa, sua recusa em se tornar apenas um nome do passado.
Que a banda siga lotando shows no Japão e esgotando datas no Reino Unido não é apenas reflexo de nostalgia ou lealdade cega de fãs. Critical Thinking prova que o Manic Street Preachers ainda entende o mundo ao seu redor — e ainda sabe transformá-lo em música que provoca, incomoda e permanece. Para uma banda formada em 1986, isso não é pouco. É, na verdade, um feito notável.
