Berceuses des deux mondes — Entre dois mundos, uma tapeçaria sonora de luto, invenção e transcendência
Berceuses des deux mondes, o mais recente álbum de Rien Virgule, é uma tapeçaria sonora que se move entre o caos e a serenidade, funcionando menos como uma coleção de músicas e mais como um mundo contínuo: profundo, meditativo e, por vezes, lindamente perturbador. Ao contrário de álbuns construídos para consumo rápido, este se revela lentamente, como um ritual sensorial em que cada faixa é um passo sobre um solo diverso, guiando o ouvinte por paisagens internas e externas.
A obra carrega ainda o peso emocional da ausência de Jean-Marc Reilla, integrante central da banda, que faleceu em 2019. Sua morte se tornou uma espécie de eixo invisível do álbum, não como homenagem explícita, mas como presença fantasmática que permeia todo o ambiente sonoro. Berceuses des deux mondes é atravessado por essa dualidade: vida e morte, corpo e espírito, solidez e dissolução. O próprio título, Canções de ninar dos dois mundos, sugere essa travessia entre o tangível e o intangível, entre o que permanece e o que se perde.
Logo na abertura, “Le rythme du sang” evoca uma pulsação orgânica, sons que brotam de um fluxo vital, conectando corpo e mente. A sensação é de estar escutando algo primordial, um batimento que antecede a própria forma musical. Em faixas como “Ostinato des parades” e “Enclos des langues”, percebemos como Rien Virgule manipula texturas com a mesma habilidade com que explora melodias: sintetizadores entrelaçam camadas densas, vozes surgem como mantras fragmentados, e a repetição, ora estática, ora em mutação, cria um transe que move-se entre o conforto e a inquietação.
Os vocais de Anne Careil são essenciais para essa experiência. Repetitivos, mântricos. Funcionam como um fio condutor emocional que ancora o ouvinte em meio às paisagens contrastantes. Sua voz acalma e lamenta, oscilando entre serenidade e ferida aberta. Em faixas como “Chute imaginaire d’un astre”, a atmosfera se torna etérea, quase vaporosa, sugerindo queda, suspensão e desintegração: um corpo celeste que se fragmenta lentamente no vazio. Já em “Les intrus du cosmos”, a banda explora territórios mais intensos, evocando vastidões cósmicas por meio de ritmos repetitivos e texturas ruidosas que tentam solidificar aquilo que já se dissolveu.
Há, ao longo do álbum, uma sensação de que o tempo se desacelera. O luto, ainda que não enunciado, se manifesta como introspecção e melancolia, filtrando todas as escolhas sonoras. É um álbum consciente da fragilidade da vida. A ausência de Reilla deixa um espaço perceptível, um vazio que não paralisa o grupo, mas que se torna matéria artística. O trio que permanece responde não apenas com técnica, mas com uma reconfiguração emocional, como se a música, para continuar, precisasse atravessar esse espaço vazio.
O resultado é um conjunto de faixas que parecem olhar simultaneamente para dentro e para fora: para o interior emocional do ouvinte, e para paisagens imaginárias que se abrem como janelas para outros mundos. É um álbum que habita a fronteira entre meditação e desorientação, entre a firmeza dos ostinatos e o desmanche das atmosferas, entre a carne que pulsa e o cosmos que dispersa.
Berceuses des deux mondes é um trabalho para ser vivido, não apenas ouvido. Sua força está na capacidade de transformar texturas eletrônicas, repetições, vocais e ruídos em algo profundamente humano — canções de ninar que embalam e confrontam, que consolam e inquietam, que nos lembram da impermanência, da memória e da beleza que também existe na ausência. O álbum se revela lentamente, e, quanto mais entramos nele, mais percebemos que Rien Virgule não está apenas criando música. Está atravessando mundos e nos convidando a escutar o que existe entre eles.
https://muraillesmusic.bandcamp.com/album/berceuses-des-deux-mondes
