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Interpol transforma o Audio em um ritual de elegância e intensidade

O Interpol transformou o palco do Audio em um ambiente onde elegância e tensão caminham lado a lado — um show que foi menos sobre espetáculo e mais sobre atmosfera, precisão e identidade.

No centro de tudo, Paul Banks reafirmou seu papel como um dos frontmen mais singulares do rock contemporâneo. Contido, quase austero, ele conduz a banda sem excessos, deixando que sua voz grave e carregada de melancolia dite o tom da noite. Banks não precisa dominar o palco com gestos — sua força está justamente na economia, na forma como parece sempre guardar algo, criando um magnetismo silencioso. Em momentos como “My Desire” e “If You Really Love Nothing”, sua interpretação foi profunda, quase introspectiva, puxando o público para dentro de cada canção.

Se Banks lidera com sobriedade, Urian Hackney trouxe o oposto complementar: uma bateria intensa, quase violenta em sua energia. Hackney toca como se estivesse conduzindo a banda para um ataque sonoro iminente, empurrando cada música para frente com precisão e força. Não há exagero, mas há urgência — seus golpes são firmes, pulsantes, criando uma tensão constante. Em faixas como “Obstacle 1” e “Roland”, sua presença foi decisiva para transformar o show em algo físico, sentido no peito.

Nos teclados, Brandon Curtis ofereceu um contraponto curioso e fascinante. Sua postura serena, quase caseira, fazia parecer que ele tocava como se estivesse na sala de casa, alheio à escala do evento. E justamente por isso seus timbres ganhavam força: discretos, mas essenciais, preenchendo o som com uma camada emocional sutil que muitas vezes passa despercebida — mas cuja ausência seria impossível ignorar.

Já no baixo, a elegância ganhou forma com Brad Truax. Sua presença em palco é refinada, quase silenciosa, mas absolutamente fundamental. Truax toca como se estivesse canalizando diretamente o espírito de Peter Hook — linhas melódicas agudas, pulsantes, que caminham à frente das guitarras e assumem protagonismo sem esforço. Mais do que base, seu baixo conduz as músicas, desenha caminhos e cria um elo direto com a voz de Banks, funcionando como uma segunda narrativa dentro de cada faixa.

Ao lado dele, Daniel Kessler manteve sua assinatura inconfundível: guitarras que não invadem, mas convidam. Seu jeito de tocar é quase coreográfico, sugerindo movimento dentro da rigidez estética da banda. Em músicas como “Narc” e “The Rover”, seus riffs soaram como convites sutis para entrar naquele universo noturno e elegante.

O setlist percorreu diferentes fases com fluidez, equilibrando momentos mais explosivos e passagens introspectivas, culminando em um encerramento forte com “Slow Hands”. Ainda assim, houve espaço para aquele típico momento de desejo coletivo: em coro, parte do público pediu por “Stella Was a Diver and She Was Always Down”. A música não veio — mas isso pouco diminuiu o impacto da noite.

Mesmo sem atender a esse pedido específico, o show saiu vitorioso. O Interpol entregou uma apresentação coesa, elegante e intensa, provando que sua identidade segue intacta — e que, ao vivo, continua sendo uma experiência que envolve, tensiona e, acima de tudo, satisfaz seu público.

Setlist – Interpol no Audio (São Paulo)

  1. All the Rage Back Home
  2. No I in Threesome
  3. C’mere
  4. Take You on a Cruise
  5. Rest My Chemistry
  6. Obstacle 1
  7. My Desire
  8. Into the Night
  9. Narc
  10. The Rover
  11. See Out Loud (Live debut)
  12. Evil
  13. Lights
  14. If You Really Love Nothing
  15. Not Even Jail
  16. PDA

Encore:
17. Pioneer to the Falls
18. Roland
19. Slow Hands

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