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Greentea Peng estreia em São Paulo com show hipnótico e espiritual na Audio

A estreia da britânica Greentea Peng no Brasil, realizada na noite de ontem (8) na Audio, em São Paulo, foi menos um simples show e mais uma experiência sensorial — ainda que tenha começado com um leve atraso, algo que, curiosamente, acabou contribuindo para a construção de expectativa em torno da apresentação.

Quando finalmente subiu ao palco, Peng não parecia interessada em seguir a lógica tradicional de performance. Em vez disso, conduziu o público por uma jornada quase ritualística, alinhada ao espírito de seu mais recente trabalho, Tell Dem It’s Sunny. A abertura com “Bali Skit” funcionou como uma espécie de portal: etérea, minimalista e carregada de intenção, estabeleceu imediatamente o tom introspectivo da noite.

Ao longo do show, Greentea Peng demonstrou domínio absoluto de sua estética híbrida — um cruzamento fluido entre neo-soul, dub e psicodelia. Faixas como “Green” e “Loving Kind” ganharam novas texturas ao vivo, com arranjos mais orgânicos e um groove ainda mais denso, sustentado por uma banda afiada e econômica. Já “Spells” e “Sane” reforçaram o caráter quase meditativo de sua música, criando momentos de suspensão no tempo.

Mas foi em “TARDIS (hardest)” que a apresentação encontrou um de seus picos: a pulsação mais direta e energética da faixa funcionou como um ponto de convergência entre artista e público, que respondeu com entusiasmo crescente. O mesmo aconteceu em “Top Steppa” e “Three Eyes Open”, onde a cadência dub encontrou um terreno fértil na acústica da casa.

Há algo de deliberadamente não linear na forma como Peng constrói seu set. Canções como “Revolution”, “Earnest” e “This Sound” não são apresentadas como hits isolados, mas como fragmentos de um fluxo contínuo, quase hipnótico. Essa abordagem pode afastar quem busca momentos mais explosivos, mas recompensa o ouvinte disposto a mergulhar na proposta.

Um dos momentos mais curiosos veio com a releitura de “soulboy”, do p-rallel, interpretada com delicadeza e personalidade, reafirmando sua capacidade de reinterpretar materiais alheios sem perder identidade. Já na reta final, faixas como “Hu Man” e “I AM (Reborn)” reforçaram o discurso espiritual e de transformação pessoal que permeia sua obra recente.

Encerrando com “Downers”, Greentea Peng optou por não entregar um clímax óbvio, mas sim um desfecho coerente com sua proposta: introspectivo, denso e aberto à interpretação. Não foi um show de catarse imediata, mas de absorção lenta — daqueles que permanecem reverberando horas depois.

Promovida pelo Queremos!, a apresentação reforça a importância de trazer ao Brasil artistas que desafiam formatos e expandem fronteiras sonoras. Mesmo com o pequeno atraso inicial, o que se viu foi uma estreia à altura da singularidade de Peng: hipnótica, espiritual e artisticamente consistente.


Setlist :

Bali Skit
Make Noise
Green
Loving Kind
Spells
Sane
TARDIS (hardest)
Top Steppa
Three Eyes Open
Revolution
Earnest
This Sound
Nah It Ain’t the Same
soulboy (p-rallel cover)
Mr. Sun (miss da sun)
What You Mean
Hu Man
I AM (Reborn)
Downers

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