Ed O’Brien transforma colapso emocional em beleza melancólica em Blue Morpho
Ed O’Brien sempre foi o membro mais silencioso do Radiohead. Nunca ocupou o centro criativo como Thom Yorke ou Jonny Greenwood, mas talvez justamente por isso Blue Morpho soe tão fascinante: é o disco de alguém que passou décadas orbitando o caos emocional do Radiohead até finalmente desabar dentro dele.
O segundo trabalho solo do guitarrista — agora lançado sob seu próprio nome e não mais como EOB — transforma depressão pandêmica, memórias de infância e esgotamento existencial em um álbum que parece pairar constantemente entre o colapso e a transcendência. É prog-folk atmosférico, ambient melancólico e art rock contemplativo, tudo envolto naquela névoa emocional tipicamente radioheadiana onde cada guitarra soa como um pensamento intrusivo ecoando às três da manhã.
A crítica internacional recebeu o álbum como o projeto paralelo mais “Radiohead” já surgido fora da banda. E isso faz sentido. Diferente do cerebralismo quase clínico do The Smile ou das experimentações eletrônicas de Yorke, Blue Morpho trabalha o vazio emocional de maneira mais humana e vulnerável. Não há cinismo aqui — apenas fadiga.
O’Brien mergulha profundamente na ideia de trauma tardio: professores que o diminuíam na infância, crises de meia-idade, isolamento e a sensação sufocante de que o mundo simplesmente perdeu o sentido durante o lockdown. Mas o álbum nunca vira confissão literal. Em vez disso, ele constrói atmosferas densas e cinematográficas que traduzem emocionalmente esse estado mental.
Musicalmente, Blue Morpho é lindíssimo. A abertura “Incantations” surge quase como um sussurro folk à la Jeff Buckley, enquanto a faixa-título mergulha em cordas etéreas e guitarras brilhantes que remetem diretamente ao período Amnesiac do Radiohead. Já “Teachers” é talvez o momento mais desconfortável do disco: nervosa, angular e quase paranoica, carrega ecos claros de Pink Floyd e da tensão psicológica de Another Brick in the Wall.
A produção de Paul Epworth amplia ainda mais essa sensação de paisagem emocional expansiva. Tudo soa enorme, mas vazio ao mesmo tempo — como caminhar sozinho por uma cidade abandonada ao amanhecer.
E então chega “Obrigado”, faixa final de quase dez minutos que funciona como catarse completa. O’Brien deixa de lado a contenção melancólica e explode em guitarras emocionais claramente inspiradas em David Gilmour. É excessivo, dramático e absolutamente sincero.
O mais interessante em Blue Morpho é perceber que Ed O’Brien não tenta competir com o legado do Radiohead — ele apenas aceita carregar suas cicatrizes. O resultado é um disco profundamente triste, mas estranhamente acolhedor. Como aquele amigo devastado emocionalmente que você encontra no pub e acaba ouvindo falar sobre a vida até o sol nascer.
