Benjamin Clementine emociona o C6 Fest 2026 com apresentação intensa no Parque Ibirapuera
A noite de domingo (24) no C6 Fest 2026 ganhou contornos quase litúrgicos durante a apresentação de Benjamin Clementine na Tenda MetLife, no Parque Ibirapuera. Em meio ao frio paulistano , o cantor britânico transformou o espaço em um espetáculo de poesia, silêncio e intensidade emocional raramente vistos em festivais.
Logo antes do início do show, o palco já chamava atenção pela cenografia minimalista. Grandes panos brancos cobriam parte dos equipamentos e estruturas laterais, funcionando como superfícies para projeções de imagens e vídeos que seriam utilizados ao longo da apresentação. Ao fundo do palco, enormes projeções alternavam cenas abstratas, imagens granuladas em preto e branco e vídeos com estética melancólica, criando uma atmosfera entre o cinema experimental e o teatro contemporâneo.
Descalço, como já virou marca registrada de suas apresentações, Benjamin Clementine entrou lentamente no palco sob aplausos intensos da plateia. Bastaram poucos minutos para que a tenda inteira mergulhasse em silêncio absoluto, hipnotizada por sua presença cênica e pela força dramática de sua voz grave. A combinação entre piano, interpretação teatral e iluminação baixa transformava cada música em um pequeno monólogo emocional.
O público acompanhava tudo com atenção rara para um festival. Não havia conversas paralelas ou distrações visíveis durante as canções mais delicadas. Em vários momentos, a plateia reagia como se estivesse diante de uma peça teatral, aguardando o fim das músicas para então explodir em aplausos longos e emocionados. A conexão construída por Clementine com São Paulo parecia imediata.
Parte dessa intensidade vem da própria trajetória do artista. Nascido em Londres, em 7 de dezembro de 1988, filho de imigrantes ganeses, Benjamin Sainte-Clémentine cresceu em Edmonton, no norte da capital inglesa. Durante a adolescência enfrentou isolamento e dificuldades financeiras, passando longos períodos frequentando bibliotecas públicas. Aos 19 anos, decidiu abandonar Londres e partir para Paris carregando apenas um teclado barato e um violão parcialmente quebrado.
Foi nas ruas e estações de metrô de Paris que sua identidade artística começou a ganhar forma. Durante anos viveu em situação precária, dormindo em albergues e tocando em bares e corredores subterrâneos enquanto desenvolvia o estilo que mais tarde o tornaria conhecido internacionalmente: uma mistura intensa de piano clássico, spoken word, soul, música erudita e interpretações profundamente emocionais.
Sua ascensão aconteceu após apresentações na televisão britânica, especialmente no programa Later… with Jools Holland, onde impressionou público e músicos pela intensidade quase visceral de sua performance. Em 2015, lançou o aclamado álbum At Least for Now, vencedor do Mercury Prize, consolidando seu nome como um dos artistas mais singulares da música contemporânea britânica. Desde então, lançou trabalhos como I Tell a Fly (2017) e And I Have Been (2022), além de colaborar com artistas como Damon Albarn e Gorillaz.
Além da música, Clementine também desenvolveu carreira no cinema, aparecendo em produções como Dune, de Denis Villeneuve, e Blitz (2024). Em 2019, recebeu do governo francês o título de Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres, reconhecimento por sua contribuição artística.
No C6 Fest, toda essa bagagem artística parecia condensada em uma única apresentação. Durante “Cornerstone”, as projeções no fundo do palco exibiam imagens lentas e abstratas enquanto os panos brancos refletiam sombras distorcidas criadas pela iluminação lateral. Já em “Nemesis”, um dos momentos mais emocionantes da noite, o público acompanhou em coro discreto, quase reverente.
A força dramática aumentou ainda mais em “Condolence”, interpretada de maneira intensa, com Clementine alternando explosões vocais e pausas silenciosas que deixavam a tenda inteira suspensa. Em “Adios” e “I Won’t Complain”, o artista parecia completamente entregue emocionalmente, caminhando lentamente pelo palco enquanto as projeções ampliavam a sensação de isolamento e melancolia.
O show terminou sob aplausos demorados e visivelmente emocionados. Muitos fãs permaneceram imóveis por alguns segundos após o encerramento, como se ainda tentassem absorver a experiência. Em um festival marcado por grandes nomes internacionais, Benjamin Clementine entregou uma das apresentações mais humanas, vulneráveis e artisticamente ambiciosas de todo o fim de semana.
Setlist – C6 Fest 2026 (24/05/2026)
- Abraham
- Nicholes
- Toxic
- Cornerstone
- Delighted
- Nemesis
- Phantom
- Shakespeare
- Condolence
- Adios
- Tempus
- I Won’t Complain
