Graham Coxon transforma um álbum perdido em uma das melhores surpresas de 2026
Existe algo fascinante em álbuns que permanecem escondidos por anos. Muitas vezes, eles acabam confirmando os motivos pelos quais ficaram na gaveta. Outras vezes, revelam obras inacabadas ou meras curiosidades para colecionadores. Mas Castle Park, novo lançamento de Graham Coxon, pertence a uma categoria muito mais rara: a dos discos que fazem o ouvinte questionar por que demoraram tanto para ver a luz do dia.
Gravado em 2011 durante as sessões de A+E, o álbum permaneceu esquecido enquanto Coxon se dividia entre reuniões do Blur, trilhas sonoras, projetos paralelos e uma série de empreitadas criativas. Quinze anos depois, o guitarrista finalmente decide apresentá-lo ao público e o resultado é surpreendente.
Quem espera a urgência nervosa e abrasiva de A+E encontrará aqui algo completamente diferente. Castle Park é um disco apaixonado pelo pop britânico dos anos 1960. Não se trata de uma homenagem nostálgica ou de um exercício de estilo. Coxon mergulha profundamente em suas referências e encontra nelas um terreno fértil para compor algumas das canções mais acessíveis e encantadoras de toda a sua carreira solo.
A abertura com “Billy Says” estabelece imediatamente o tom do álbum. A influência dos Kinks é evidente, mas jamais soa como imitação. Coxon absorve o espírito daquela época e o transforma em algo pessoal. O mesmo acontece em “Alright”, “When You Find Out” e “There’s A Little House”, faixas que parecem construídas para permanecer na memória muito depois da última audição.
O grande trunfo de Castle Park está justamente em sua aparente simplicidade. Em uma era dominada por produções excessivamente calculadas, Coxon entrega um álbum de melodias diretas, refrões elegantes e arranjos que servem às músicas em vez de competir com elas.
Mas reduzir o disco a um exercício de pop retrô seria injusto. Em diversos momentos, o músico aponta para caminhos mais ambiciosos. “Isn’t It Funny” possui uma atmosfera cinematográfica que antecipa seus trabalhos posteriores para cinema e televisão. “Mélodie Pour Christine” oferece um delicado interlúdio instrumental, enquanto “Dripping Soul” incorpora sutis referências às trilhas de Ennio Morricone. Já “Easy” apresenta uma ternura melódica que remete aos Beatles de sua fase mais contemplativa.
O álbum também reforça uma qualidade frequentemente ignorada quando se fala sobre Graham Coxon: sua habilidade como compositor. Durante décadas, sua imagem esteve inevitavelmente ligada ao papel de guitarrista do Blur. No entanto, sua discografia solo sempre revelou um artista inquieto, capaz de transitar entre folk, punk, rock alternativo e pop com naturalidade impressionante.
Em Castle Park, essa versatilidade aparece em sua forma mais refinada. Não há excessos, nem experimentações forçadas. Apenas um compositor confortável com sua identidade artística e disposto a seguir seus instintos melódicos.
Talvez o aspecto mais impressionante do disco seja justamente sua atualidade. Embora tenha sido gravado há quinze anos, ele não soa datado. Pelo contrário: em um momento em que tantos artistas revisitam influências sessentistas, Castle Park surge como uma demonstração autêntica de amor pelo formato clássico da canção pop.
Se tivesse sido lançado em 2011, provavelmente seria lembrado como um dos pontos altos da carreira solo de Coxon. Lançado agora, torna-se algo ainda mais interessante: uma redescoberta que permite reavaliar um artista cuja obra fora do Blur jamais recebeu toda a atenção que merece.
Mais do que um álbum perdido, Castle Park é um lembrete oportuno de que Graham Coxon continua sendo um dos compositores mais talentosos e subestimados da música britânica.
