PUMP UP THE VOLUME

BlogEditor's PickLançamento de discosMust Read

Rosacea – Gaute Granli

A primeira impressão que tive ao ouvir Rosacea, de Gaute Granli, foi a de um álbum funcionando permanentemente à beira do colapso. As músicas soam como se todas as partes que as compõem tivessem sido espalhadas aleatoriamente ao longo da gravação e, somente depois disso, alguém tivesse apertado play para descobrir o que sairia dali. A sensação é a de que os elementos colidem, se afastam, aparecem onde e quando não são esperados ou “não deveriam”, reaparecem e seguem trajetórias independentes, sem qualquer preocupação aparente com organização, equilíbrio ou hierarquia. Expectativas desmoronam. Um troço fascinante.

Existe uma frase atribuída ao próprio Granli que ajuda a entender o álbum: “I just make stuff until it sounds right.” Ouvindo Rosacea, essa declaração parece menos uma descrição de método e mais uma filosofia de composição. A ordem que emerge de Rosacea não vem de convenções musicais, mas do ouvido do próprio artista. Não há a impressão de alguém seguindo regras nem de alguém tentando quebrá-las. As regras simplesmente parecem não fazer parte da conversa. E há algo profundamente inspirador nisso. Rosacea soa como um lembrete de que a música é maior do que qualquer conjunto de regras, maior do que muitas ideias sobre o que é certo ou errado e, às vezes, até maior do que algumas definições do que seria ou não seria música. 

A voz desempenha um papel fundamental em Rosacea. Granli não canta como alguém tentando se encaixar no arranjo. Não há qualquer traço de timidez ou contenção. Quando surge, a voz ocupa espaço, atravessa a música e se impõe sem pedir licença. Em alguns momentos, há algo quase litúrgico em sua interpretação, como se certas inflexões viessem de algum repertório de música sacra deslocado para um contexto completamente diferente. Ela não funciona como guia para o restante dos elementos nem como centro organizador das composições. É mais uma força atuando dentro da massa sonora. E existe algo estranhamente cativante nisso. Em um universo musical tão turbulento e imprevisível, seria fácil imaginar a voz soterrada, escondida ou reduzida a mais uma textura. Granli faz exatamente o contrário. Ele a coloca na linha de frente.

Uma imagem que retorna várias vezes durante a audição é a de muitas cores explodindo simultaneamente em todas as direções. Não existe um centro evidente. Não existe um caminho obrigatório. Não existe um ponto para o qual tudo converge. Os sons coexistem, colidem, desaparecem e retornam sem que o ouvinte receba instruções claras sobre onde deve concentrar sua atenção.

O maior feito de Rosacea talvez seja justamente esse. O álbum cria a impressão de que qualquer coisa poderia acontecer a qualquer momento, mas raramente perde sua identidade. Por mais desconcertantes que sejam suas escolhas, existe uma coerência profunda atravessando tudo: a coerência de uma imaginação singular. 

Rosacea soa como o trabalho de alguém que confia completamente no próprio ouvido e que não sente necessidade de justificar suas escolhas. Em vez de apresentar uma tese sobre liberdade artística, ele simplesmente a pratica.

É justamente isso que torna o álbum tão revigorante. Há uma sensação permanente de que a música está acontecendo antes de qualquer preocupação com forma, correção ou legitimidade. O resultado é uma obra que soa profundamente livre. Rosacea é lindo.

https://nashazphone.bandcamp.com/album/rosacea

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *