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Cortes nas vendas de merchandising continuam prejudicando artistas: por que a prática ainda gera tanta polêmica?

Comprar uma camiseta, um pôster ou um disco diretamente na banca de merchandising de um show sempre foi considerado uma das melhores formas de apoiar financeiramente um artista. No entanto, uma prática comum na indústria da música ao vivo continua reduzindo significativamente esse retorno: os chamados “merch cuts”, porcentagens das vendas de produtos que muitas casas de shows retêm após as apresentações.

Três anos depois de bandas como Architects denunciarem publicamente essa política, o debate segue mais atual do que nunca. Apesar da pressão de artistas, sindicatos e fãs, muitos músicos afirmam que pouca coisa mudou.

Em diversos locais, principalmente na Austrália, Europa e América do Norte, as casas de espetáculo ficam com entre 10% e 20% da receita obtida com camisetas, bonés, discos e outros produtos vendidos durante os shows. Em alguns casos, esse percentual pode ser ainda maior.

A justificativa dos estabelecimentos varia. Grandes arenas alegam que fornecem funcionários, sistemas de pagamento e infraestrutura para operar as bancas de merchandising. Já em casas menores, porém, a situação costuma ser diferente: muitas vezes os próprios músicos levam seus produtos, montam a banca, utilizam suas maquininhas de cartão e contam apenas com a ajuda da equipe da turnê.

Para muitos artistas, cobrar uma comissão nessas circunstâncias é injustificável.

A presidente da seção de Victoria do sindicato Musicians Australia, Monica Sottile, afirma que as bandas já pagam pelo aluguel da casa de shows e ainda ajudam a movimentar o consumo no bar, principal fonte de receita dos estabelecimentos. Segundo ela, se um espaço depende da comissão sobre o merchandising para sobreviver, talvez seu modelo de negócios precise ser revisto.

Nos últimos anos, diversas bandas passaram a buscar alternativas para evitar essas taxas. Grupos como Make Them Suffer, Alpha Wolf, Northlane e Gouge Away chegaram a vender seus produtos do lado de fora das casas de shows ou diretamente das vans da turnê.

A estratégia permite que toda a receita fique com os músicos, mas também traz riscos. Além da falta de segurança, artistas temem sofrer represálias ou até serem impedidos de tocar em determinados locais futuramente.

Outro problema apontado pelos músicos é a pouca transparência dos contratos. Em muitos casos, os acordos são fechados entre agentes e casas de shows, e as bandas só descobrem as porcentagens cobradas quando já não há espaço para negociação.

Há ainda um efeito indireto para o público: para compensar as comissões, muitos artistas acabam aumentando o preço das camisetas e outros produtos. Isso torna o merchandising mais caro justamente para os fãs que desejam apoiar seus músicos favoritos.

Como alternativa, iniciativas começam a surgir em outros países. No Reino Unido, a organização Featured Artists Coalition criou o programa 100% Venues, que reúne casas de shows comprometidas com práticas mais justas. Entre os princípios da iniciativa estão a proibição de comissões sobre as vendas das bandas de abertura, liberdade para os artistas venderem seus próprios produtos, transparência nos contratos e possibilidade de negociação das taxas.

Na Austrália, o sindicato Musicians Australia também trabalha em propostas para tornar o setor mais equilibrado, incluindo a criação de uma lista de casas de shows comprometidas com remunerações mínimas para músicos.

Apesar das críticas ao sistema, os próprios artistas fazem um apelo aos fãs: continuem comprando merchandising nos shows. Mesmo quando parte da receita fica com a casa de espetáculos, essa ainda é uma das formas mais importantes de gerar renda para bandas independentes, especialmente em um cenário em que os pagamentos provenientes das plataformas de streaming continuam sendo considerados insuficientes para sustentar carreiras musicais.

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