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Those Who Walk Away – Afterlife Requiem

O desaparecimento é a força que organiza *Afterlife Requiem*. Matthew Patton não utiliza a morte como tema nem como metáfora; faz dela um princípio de composição. Tudo neste álbum parece submetido ao mesmo processo de erosão: as melodias perdem contorno, os drones dissolvem a percepção do tempo, as cordas soam como lembranças que já começaram a falhar e até o silêncio deixa de representar ausência para adquirir densidade própria.

Embora tenha sido concebido como uma homenagem a Jóhann Jóhannsson, amigo e colaborador de Patton, o disco evita qualquer sentimentalismo. Em vez de celebrar sua memória, incorpora sua ausência. Fragmentos inacabados encontrados nos discos rígidos deixados pelo compositor islandês surgem ao longo da obra como espectros sonoros: registros interrompidos, resíduos de ideias, gravações abandonadas em diferentes estados de formação e deterioração. Patton os descreve como “fantasmas de áudio desencarnados”, e essa talvez seja a imagem mais precisa para definir sua função. Eles não aparecem para completar a música, mas para lembrar que ela já nasceu incompleta.

Essa lógica atravessa toda a arquitetura do álbum. Os *Degraded Hymns*, interpretados por dois quintetos de cordas, convivem com os *Memorial Environments*, compostos por drones, gravações de campo, eletrônica e os vestígios de Jóhannsson. A divisão existe apenas no papel. Durante os quarenta e cinco minutos de duração, as nove seções se fundem em um fluxo contínuo, mantido por um drone grave e persistente que percorre a obra como uma corrente subterrânea. O resultado não é uma coleção de peças independentes, mas um único organismo lentamente perdendo sua integridade.

O tempo desempenha um papel decisivo nessa experiência. Patton afirmou que imaginou o álbum como um enorme *ritardando*, uma desaceleração contínua em que o tempo não apenas diminui de velocidade, mas desaparece. A ideia é perceptível desde os primeiros minutos. Nada parece caminhar em direção a uma resolução. Os acontecimentos tornam-se cada vez mais espaçados, as pausas ganham peso e as notas permanecem suspensas tempo suficiente para que sua extinção se torne parte da própria escuta.

Há ecos evidentes da escrita de Jóhann Jóhannsson nas harmonias lentas e nas cordas de caráter litúrgico, mas Patton evita qualquer tentativa de emulação. Sua música é mais corroída, menos cinematográfica, mais interessada na matéria do som do que na construção de imagens. Em diversos momentos, drones ásperos, ruídos mecânicos e gravações de campo engolem lentamente os instrumentos acústicos, produzindo uma sensação inquietante de que toda forma organizada acabará absorvida por um fundo indistinto.

Patton trata o luto com uma contenção. Não há explosões emocionais, catarses grandiosas ou gestos melodramáticos. Trabalha por subtração. Em vez de acrescentar significado, remove-o lentamente, permitindo que cada elemento sobreviva apenas como vestígio de algo que um dia existiu por inteiro. O álbum inteiro parece composto por restos: restos de gravações, restos de melodias, restos de memória.

Essa escolha aproxima *Afterlife Requiem* de uma tradição da música ambiente que utiliza o espaço, a duração e a textura como elementos expressivos, mas Patton leva essa linguagem a um lugar singular. Seu interesse não está apenas no silêncio ou na lentidão, mas naquilo que acontece quando uma obra começa a perder suas próprias referências internas. O disco soa menos como música sendo executada do que como música sendo lembrada.

Nada aqui funciona apenas como ideia. Os fragmentos de Jóhannsson, a instrumentação, a eletrônica, a estrutura em fluxo contínuo e a desaceleração progressiva convergem para um mesmo objetivo: transformar a impermanência em linguagem sonora.

*Afterlife Requiem* não pede contemplação passiva. Exige uma escuta paciente, capaz de acompanhar seus lentos deslocamentos e aceitar que algumas das experiências mais profundas da música acontecem justamente quando ela parece estar desaparecendo diante de nós. É um álbum de enorme rigor formal, emocionalmente devastador sem recorrer ao excesso e, acima de tudo, uma reflexão sofisticada sobre memória, perda e o destino inevitável de todas as coisas.

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