Cabaret Voltaire faz primeiro e último show no Brasil em março de 2027
Turnê de despedida da icônica banda britânica, pioneira da música industrial e influência para Ministry e Front 242, terá apresentação única no Cine Joia, em São Paulo
O Cabaret Voltaire, grupo britânico que ajudou a definir os caminhos da música industrial e se tornou uma das formações mais influentes da música eletrônica experimental, finalmente fará sua estreia no Brasil. A banda se apresenta em 6 de março de 2027, sábado, no Cine Joia, em São Paulo, em um show único que também será sua primeira e última apresentação no país.
A apresentação faz parte da turnê de despedida do Cabaret Voltaire e terá Stephen Mallinder, integrante original da banda, à frente do projeto. O show brasileiro será realizado pela Maraty, com apoio da Powerline Music & Books.
Os ingressos estão à venda pela Fastix.
A chegada do Cabaret Voltaire ao Brasil acontece depois de uma trajetória que ajudou a estabelecer algumas das bases da música industrial, além de aproximar o pós-punk da eletrônica, do funk e da música de pista. Sua influência pode ser percebida em gêneros como industrial, EBM, pós-punk, synthpop e techno, alcançando diferentes gerações de artistas.
Bandas como Ministry, Nitzer Ebb e Front 242 estão entre os nomes associados à influência do Cabaret Voltaire. Trent Reznor, do Nine Inch Nails, também já apontou as primeiras gravações do grupo britânico como uma referência importante para seu trabalho com How to Destroy Angels.
Entre DJs e produtores de techno, a influência também permanece. Surgeon destacou a inquietação de Richard H. Kirk e sua busca constante por novos sons, enquanto o espanhol Oscar Mulero colocou os discos do Cabaret Voltaire entre suas primeiras descobertas na música eletrônica no final dos anos 1980.
Cabaret Voltaire: gênese e legado
Desde as primeiras experiências realizadas em Sheffield, em 1973, o Cabaret Voltaire transformou o próprio processo de gravação em parte fundamental da composição. Vozes retiradas da televisão, fragmentos de rádio, sintetizadores, instrumentos processados e ruídos eram reorganizados para criar uma linguagem musical que desafiava as convenções do rock.
A abordagem dialogava com o dadaísmo e com as experiências literárias de William S. Burroughs, mas também incorporava elementos da música negra norte-americana, especialmente do electro e do hip-hop.
O resultado era uma eletrônica marcada por tensão, repetição e movimento. As estruturas podiam provocar estranhamento, mas também apresentavam uma pulsação capaz de conduzir o ouvinte para a pista de dança.
A pesquisa desenvolvida por Richard H. Kirk, Stephen Mallinder e Chris Watson, integrantes da formação original, ganhou forma em trabalhos fundamentais como Mix-Up (1979), The Voice of America (1980) e Red Mecca (1981).
Nesses discos, os ritmos insistentes davam sustentação às vozes processadas, enquanto o ruído deixava de ser um elemento estranho e passava a participar diretamente da construção das músicas.
Faixas como “Spread the Virus” e “A Thousand Ways” ajudam a compreender a permanência de Red Mecca, álbum que apareceu em quarto lugar na lista da Pitchfork dos 33 melhores álbuns industriais, publicada em 2019.
Nos trabalhos seguintes, a relação do Cabaret Voltaire com a música de pista ganhou ainda mais espaço. A colaboração com o produtor Flood em The Crackdown (1983), seguida por Micro-Phonies (1984), trouxe maior definição ao encontro entre baixo, voz e programação eletrônica.
“Just Fascination”, “Sensoria” e “Do Right” levaram para as pistas a inquietação que já estava presente nas primeiras gravações. The Crackdown também representou um importante momento comercial para o grupo, chegando ao 31º lugar da parada britânica de álbuns.
O interesse pelas novas linguagens da música eletrônica levou Kirk e Mallinder até Chicago, onde trabalharam com Marshall Jefferson, um dos nomes fundamentais do house, no álbum Groovy, Laidback and Nasty, de 1990.
O disco trouxe faixas como “Hypnotised” e “Easy Life” e aprofundou uma aproximação com estruturas mais dançantes que já fazia parte da pesquisa musical do Cabaret Voltaire.
Uma influência que atravessou gerações
O impacto do Cabaret Voltaire não ficou restrito à cena industrial. Suas experiências encontraram continuidade em artistas de diferentes gêneros e gerações.
Martin Moscrop, do A Certain Ratio, já falou sobre a influência de Richard H. Kirk em sua maneira de trabalhar a guitarra, especialmente na tentativa de fazê-la assumir características próximas às de um sintetizador.
Surge também destacou a amplitude da pesquisa musical do grupo, enquanto outros artistas encontraram em diferentes períodos da discografia do Cabaret Voltaire referências para explorar novas possibilidades dentro da música eletrônica.
Essa capacidade de transitar entre o experimental e o dançante ajudou a transformar o Cabaret Voltaire em uma referência que atravessou décadas.
O retorno e a despedida
A despedida começou a tomar forma em 2025, quando Stephen Mallinder e Chris Watson voltaram a trabalhar juntos como Cabaret Voltaire para marcar os 50 anos da primeira apresentação da banda, realizada em Sheffield em maio de 1975.
O reencontro aconteceu alguns anos depois da morte de Richard H. Kirk, em 2021. Kirk havia mantido o projeto ativo como seu único integrante durante a fase posterior da banda, retomando apresentações ao vivo no Berlin Atonal, em 2014, e lançando o álbum Shadow of Fear em 2020.
Os arranjos preparados para os shows britânicos de 2025 foram registrados em But What Time Is It Really?, lançado em 24 de abril de 2026.
O álbum reúne 16 faixas em sua edição digital e apresenta novas versões de clássicos como “Yashar”, “Just Fascination”, “Nag Nag Nag” e “Sensoria”, além da peça “Tinsley Viaduct”.
O registro documenta a forma que o repertório assumiu no retorno aos palcos e serve como uma espécie de capítulo final para uma história iniciada há mais de cinco décadas.
Agora, essa história finalmente chegará ao Brasil.
No dia 6 de março de 2027, o público paulistano terá a oportunidade de assistir ao primeiro — e último — show do Cabaret Voltaire no país. Uma apresentação histórica para uma banda que ajudou a transformar ruído em linguagem, máquinas em instrumentos e a experimentação eletrônica em música capaz de ocupar também as pistas de dança.
SERVIÇO
Cabaret Voltaire – Final Tour
Data: 6 de março de 2027, sábado
Local: Cine Joia
Endereço: Praça Carlos Gomes, 82, Liberdade, São Paulo/SP
Ingressos: Fastix
Realização: Maraty
Apoio: Powerline Music & Books
