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High Vis transforma o Balaclava Fest em um ataque de hardcore, guitarras e movimento

Banda inglesa levou ao palco do Tokio Marine Hall uma apresentação física e agressiva, atravessada por punk, pós-punk e ecos de Madchester

O High Vis não parece interessado em fazer shows confortáveis. Na noite de 27 de setembro de 2026, no Tokio Marine Hall, em São Paulo, a banda inglesa entrou em cena no segundo dia do Balaclava Fest para transformar seu repertório em uma experiência física, agressiva e permanentemente inquieta.

O festival reuniu oito atrações no domingo, entre elas DIIV, Beach Fossils, Wednesday e Sudan Archives, mas o High Vis ocupou um território bastante diferente dentro da programação.

Desde os primeiros acordes de “Drop Me Out”, a apresentação foi construída na base do impacto. Guitarras cortantes, bateria pesada e o vocal de Graham Sayle funcionando quase como mais um instrumento de percussão deram ao show uma urgência que não dependia apenas da velocidade. Sayle se movimenta constantemente, avançando pelo palco, enquanto a banda mantém uma tensão que parece prestes a explodir a qualquer momento.

É aí que está uma das características mais interessantes do High Vis ao vivo: a agressividade não é simplesmente sinônimo de hardcore tradicional. O grupo pega a intensidade física do gênero e a coloca em contato com pós-punk, Britpop, psicodelia e até elementos de Madchester, criando uma música que alterna peso, melodia e groove. A própria banda descreve essa combinação como um espaço entre “hooks and fury, melodies and mosh pits”.

No Balaclava Fest, essa mistura funcionou especialmente bem. “Walking Wires”, “Talk for Hours” e “Altitude” mantiveram o show em movimento, enquanto “Out Cold” e “Farringdon” reforçaram o lado mais pesado do repertório.

O público não ficou apenas diante do palco. A apresentação do High Vis cria uma espécie de reação em cadeia: a energia vem da banda, chega à plateia e retorna ainda mais forte. Não existe muita distância entre quem está tocando e quem está assistindo. O resultado é um show que se aproxima muito mais da lógica de uma apresentação de hardcore do que de um tradicional concerto de rock.

Uma banda formada dentro do hardcore

O High Vis nasceu em Londres, em 2016, reunindo músicos ligados a diferentes grupos da cena hardcore britânica. Entre seus integrantes estavam pessoas que haviam passado por bandas como Dirty Money, Tremors, DiE e The Smear. A experiência acumulada nesse circuito ajudou a estabelecer a intensidade que continua sendo uma das marcas do grupo.

O nome da banda vem da abreviação de high visibility, referência às roupas de alta visibilidade usadas principalmente por trabalhadores. A escolha combina com uma banda que sempre manteve uma relação forte com experiências e ambientes da classe trabalhadora britânica.

O primeiro álbum, No Sense No Feeling, lançado em 2019, já mostrava que o High Vis não pretendia permanecer limitado às convenções do hardcore. As guitarras carregavam elementos de pós-punk e rock alternativo, enquanto a voz de Sayle acrescentava uma dimensão mais áspera e urbana.

Em Blending, de 2022, essa expansão ficou ainda mais evidente. O disco trouxe músicas como “Talk for Hours” e “Trauma Bonds”, aprofundando a relação da banda com melodias e diferentes texturas sem abandonar a agressividade de suas raízes.

A evolução chegou a outro estágio com Guided Tour, lançado em 2024. O álbum reúne street punk, indie, rock alternativo, psicodelia e ritmos próximos ao house e ao garage, especialmente em “Mind’s a Lie”.

Essa diversidade não dilui a força do grupo. Pelo contrário. No palco, ela cria diferentes níveis de intensidade.

Quando o hardcore encontra Madchester

Um dos grandes diferenciais do High Vis está justamente nessa capacidade de fazer uma música pesada que também tem balanço.

“Mob DLA” é um bom exemplo. O baixo e a bateria criam uma pulsação quase dançante, enquanto as guitarras continuam carregadas de tensão. Já “Mind’s a Lie” leva essa ideia ainda mais longe, incorporando referências de house e garage à estrutura da banda.

No show, essas características ganham outra dimensão. O que no disco pode parecer uma combinação cuidadosa de estilos se transforma em uma massa sonora muito mais direta. A banda toca com força, sem deixar os arranjos perderem definição.

A imprensa britânica já destacou justamente essa característica. A Rolling Stone UK descreveu o High Vis como uma banda capaz de entrar em um modo particularmente feroz, citando “Drop Me Out” entre os momentos em que o grupo mostra toda sua potência coletiva.

Em São Paulo, essa ferocidade apareceu sem necessidade de grandes recursos cênicos. O espetáculo estava nos próprios músicos: Sayle correndo, avançando, gesticulando e cantando como se cada frase precisasse atravessar fisicamente a plateia, enquanto guitarra, baixo e bateria mantinham uma parede sonora compacta.

A sequência final foi particularmente contundente. “A Fist for When You’re Down”, “The Bastard Inside”, “Choose to Lose”, “Mind’s a Lie” e “Trauma Bonds” conduziram o show para uma conclusão que preservou até o último momento a tensão construída desde a abertura.

Houve ainda espaço para uma música nova, ainda não identificada no setlist, sinalizando que o High Vis continua trabalhando em material que poderá suceder Guided Tour.

A estreia brasileira no Balaclava Fest mostrou uma banda que conseguiu transportar para um palco de festival a essência de um show de hardcore: volume, suor, movimento, confronto e proximidade. Mas fez isso sem abrir mão das melodias e dos grooves que tornaram o High Vis diferente dentro dessa cena.

No fim, o que ficou foi menos a sensação de ter assistido a uma banda simplesmente executando músicas e mais a impressão de ter atravessado um vendaval de guitarras. O High Vis toca como quem precisa se livrar de alguma coisa — e faz o público participar desse processo.


HIGH VIS — SETLIST

Balaclava Fest
Tokio Marine Hall, São Paulo, Brasil
27 de setembro de 2026

  1. Drop Me Out
  2. Walking Wires
  3. Talk for Hours
  4. Altitude
  5. Out Cold
  6. Farringdon
  7. Mob DLA
  8. 0151
  9. Guided Tour
  10. (Unknown) — Chus- Música Nova
  11. A Fist for When You’re Down
  12. The Bastard Inside
  13. Choose to Lose
  14. Mind’s a Lie
  15. Trauma Bonds

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