DIIV mergulha o Balaclava Fest em guitarras e psicodelia
Banda nova-iorquina entrou no palco e transformou o Tokio Marine Hall em uma massa sonora entre o shoegaze, o dream pop e o pós-punk
O DIIV entrou no palco do Balaclava Fest, em São Paulo, com uma imagem que imediatamente contrastava com a música que viria a seguir. Zachary Cole Smith e os demais integrantes apareceram vestidos de terno e gravata, criando uma aparência quase formal, rígida, que logo seria desmontada pela intensidade das guitarras.
A apresentação aconteceu na noite de 27 de setembro de 2026, no Tokio Marine Hall, como uma das atrações principais do segundo dia do festival. O DIIV começou seu show às 21h40, depois de uma programação que passou por Winona Riders, Wednesday, Beach Fossils e outras atrações.
A primeira música, “Horsehead”, já estabeleceu o ambiente. O DIIV não precisa de uma explosão imediata para dominar o palco. A banda trabalha com camadas: guitarras que se sobrepõem, linhas de baixo que sustentam a estrutura e uma bateria que dá peso a uma música aparentemente etérea. O resultado é uma parede sonora que vai crescendo sem perder sua delicadeza.
“Under the Sun” trouxe para o palco uma das características mais reconhecíveis do grupo: a capacidade de fazer o shoegaze soar simultaneamente hipnótico e pesado. A partir dali, o repertório começou a percorrer diferentes períodos da carreira, incluindo quatro estreias ao vivo: “The Fountain”, “The Crash”, “Kid”, “Dare Me”, “My Star” e “Trillions” aparecem identificadas no registro do show como live debuts.
Do projeto solo ao DIIV
A história do DIIV começa em 2011, em Nova York, quando Zachary Cole Smith transformou suas próprias composições em um projeto inicialmente chamado Dive. Smith já havia tocado bateria no Beach Fossils e guitarra na banda de psicodelia Soft Black. Para transformar o projeto em uma banda ao vivo, chamou o amigo de infância Andrew Bailey e outros músicos.
O nome precisou ser alterado para DIIV, e a banda rapidamente chamou atenção da gravadora independente Captured Tracks. O primeiro álbum, Oshin, lançado em 2012, apresentou uma combinação de dream pop, shoegaze, krautrock e guitarras inspiradas por nomes como My Bloody Valentine, ao mesmo tempo em que carregava uma identidade própria.
Se Oshin apresentou um DIIV mais luminoso e atmosférico, Is the Is Are, de 2016, aprofundou a dimensão emocional das composições. Depois vieram Deceiver, em 2019, e Frog in Boiling Water, de 2024.
A transformação sonora ficou particularmente evidente em Deceiver. O disco levou o grupo para uma região mais pesada, incorporando elementos de shoegaze e pós-punk a uma escrita marcada por temas pessoais. O álbum chegou ao sexto lugar da parada americana de álbuns independentes.
Com Frog in Boiling Water, o grupo voltou a ampliar suas possibilidades. Produzido por Chris Coady, o disco incorporou breakbeats, gravações de campo e novas texturas à linguagem do DIIV. A formação que gravou o álbum reúne Zachary Cole Smith, Andrew Bailey, Colin Caulfield e Ben Newman.
Um show construído em camadas
No Balaclava Fest, essa trajetória apareceu condensada em quase duas décadas de música. “Valentine”, “Dopamine” e “Follow” recuperaram diferentes momentos da discografia, enquanto “Soul-net” e “Frog in Boiling Water” representaram a fase mais recente.
O momento mais inesperado veio com “Playboy Bunny”, uma versão de “Playboy Bunny”, de Charli xcx. Em meio a uma apresentação dominada por guitarras e atmosferas densas, a escolha funcionou como uma quebra de expectativa.
Mas foi na parte final que o show ganhou maior dimensão. “My Star”, “Trillions”, “Taker”, “Doused”, “Acheron” e “Blankenship” levaram o DIIV de volta à sua combinação mais característica: melodia e ruído coexistindo dentro de uma mesma massa sonora.
“Doused”, em especial, mostrou por que a banda continua sendo associada ao shoegaze contemporâneo. A guitarra deixa de ser simplesmente um instrumento melódico e passa a ocupar todo o espaço, criando uma espécie de neblina sonora. O baixo e a bateria, porém, impedem que essa massa se torne amorfa.
O contraste entre a aparência dos músicos e a música também acabou funcionando como uma espécie de síntese da apresentação. Os ternos e gravatas sugeriam contenção; o som fazia exatamente o contrário. Por trás da imagem formal havia uma banda interessada em distorção, volume, repetição e intensidade.
A formação atual do DIIV também representa uma fase de maior estabilidade depois das turbulências que marcaram parte da história do grupo. A entrada de Colin Caulfield no baixo e Ben Newman na bateria, ao lado de Smith e Bailey, consolidou a formação responsável por Deceiver e Frog in Boiling Water.
O resultado no Tokio Marine Hall foi um show que não dependeu de grandes gestos. O DIIV deixou que as próprias músicas construíssem o espetáculo. As guitarras foram ocupando o ambiente aos poucos, as luzes reforçaram as mudanças de clima e a banda manteve uma postura quase austera no palco.
Quando “Blankenship” encerrou a apresentação, o contraste inicial entre os ternos e o ruído parecia fazer ainda mais sentido. O DIIV havia passado pouco mais de uma hora transformando elegância visual em uma experiência sonora densa, pesada e hipnótica.
No Balaclava Fest, a banda mostrou que sua música não cabe apenas na definição de shoegaze. Existe psicodelia, dream pop, pós-punk, rock alternativo e uma preocupação cada vez maior com textura e atmosfera. E, ao vivo, todas essas referências se encontram em um único lugar: uma parede de guitarras que cresce lentamente até tomar conta de tudo.
DIIV — SETLIST
Balaclava Fest
Tokio Marine Hall, São Paulo, Brasil
27 de setembro de 2026
- Horsehead
- Under the Sun
- The Fountain (nova)
- The Crash (nova)
- Valentine
- Dopamine
- Follow
- Kid (nova)
- Dare Me (nova)
- Playboy Bunny (Charli xcx cover)
- Soul-net
- Frog in Boiling Water
- My Star (nova)
- Trillions (nova)
- Taker
- Doused
- Acheron
- Blankenship
