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A Flock of Seagulls no Cine Joia: quando a memória pesa mais que o presente

Existe uma diferença entre assistir a uma banda histórica e assistir a uma banda que ainda consegue transformar sua história em um grande espetáculo. A Flock of Seagulls pertence, hoje, mais à primeira categoria.

Na noite de 7 de outubro, no Cine Joia, em São Paulo, o grupo finalmente estreou no Brasil levando ao palco um repertório que ajudou a definir a new wave britânica dos anos 1980. Para quem cresceu ouvindo “I Ran”, “Space Age Love Song” e “Wishing (If I Had a Photograph of You)”, a oportunidade de finalmente ver Mike Score ao vivo tinha, naturalmente, um enorme peso simbólico.

Mas a nostalgia, sozinha, não sustenta um show.

O A Flock of Seagulls surgiu em Liverpool no final dos anos 1970, em meio à transformação provocada pelo pós-punk, pelos sintetizadores e pela chegada de uma nova linguagem visual à música pop. Liderado por Mike Score, o grupo rapidamente desenvolveu uma identidade própria, combinando guitarras atmosféricas, teclados, linhas de baixo marcantes e uma estética futurista que acabou se tornando inseparável de sua música.

O primeiro álbum, A Flock of Seagulls, de 1982, colocou a banda no mapa internacional. “I Ran (So Far Away)” virou seu maior sucesso, enquanto “Space Age Love Song” revelou uma faceta mais sofisticada e atmosférica. No ano seguinte, Listen ampliou o alcance do grupo com “Wishing (If I Had a Photograph of You)”.

Havia, portanto, muito mais ali do que um corte de cabelo extravagante e um hit de MTV.

“D.N.A.”, instrumental do primeiro álbum, chegou a ganhar o Grammy de Melhor Performance Instrumental de Rock em 1983. A banda fazia parte de uma geração que estava ajudando a derrubar as fronteiras entre rock, pop e música eletrônica.

Esse é o A Flock of Seagulls que entrou para a história.

O problema é que o A Flock of Seagulls que subiu ao palco do Cine Joia é outra coisa.

A banda contra o próprio passado

Mike Score continua sendo a figura central, mas o tempo é um adversário particularmente cruel para músicos cuja obra está tão ligada à voz e à energia de uma determinada época.

E Score já não possui o mesmo fôlego de seus anos de maior sucesso.

Não é uma questão de exigir que um músico veterano tenha a mesma voz de quatro décadas atrás. É simplesmente impossível ignorar que músicas como “I Ran”, “Wishing” e “The More You Live, the More You Love” foram concebidas para uma voz que tinha outro alcance, outra resistência e outra presença.

No Cine Joia, Score cantou dentro das possibilidades atuais. Em alguns momentos, isso funcionou. Em outros, ficou evidente que a voz precisava ser preservada para chegar ao final do repertório.

O resultado foi uma apresentação correta, mas raramente empolgante.

O show demorou a ganhar intensidade e, em boa parte do tempo, permaneceu preso a uma mesma dinâmica.

É aí que aparece o principal problema da noite: a monotonia.

A sequência de músicas é boa. O problema é a maneira como elas são apresentadas. Faltaram grandes variações de dinâmica, momentos de ruptura, improvisações ou qualquer sensação de que aquela noite pudesse produzir uma versão diferente das músicas conhecidas.

O A Flock of Seagulls parecia, em diversos momentos, cumprir uma tarefa: tocar aquelas músicas da maneira mais próxima possível do esperado.

E isso é pouco para uma banda que ajudou a inventar uma linguagem.

Pando assume a comunicação

Outro aspecto curioso foi a relação da banda com a plateia.

Mike Score permaneceu relativamente distante. A comunicação ficou muito mais concentrada em Pando, baixista e um dos integrantes da atual formação.

Foi ele quem funcionou como principal ponte entre palco e público, ajudando a quebrar o distanciamento de uma apresentação que, musicalmente, muitas vezes parecia excessivamente controlada.

A postura é compreensível. Mike Score é o rosto histórico da banda e não precisa transformar cada música em um discurso. Mas o resultado foi uma apresentação com pouca interação e pouca construção dramática.

Para uma banda que passou décadas sendo associada a uma estética tão forte, faltou justamente aquilo que transforma um concerto em acontecimento: personalidade no palco.

Quando o passado entra em cena

Curiosamente, os melhores momentos foram aqueles em que a música venceu a performance.

“Space Age Love Song” continua extraordinária. A faixa possui uma atmosfera que permanece intacta, e os sintetizadores e guitarras ainda produzem aquele sentimento de deslocamento que fez da banda algo diferente dentro da new wave.

“Wishing (If I Had a Photograph of You)” também funcionou muito bem. É uma música que não precisa de exageros para convencer. Sua melodia é suficientemente forte para atravessar quatro décadas.

E então veio “I Ran”.

É quase impossível separar a música da memória coletiva dos anos 1980. Os primeiros segundos já provocam uma reação automática. O público reconhece a canção antes mesmo que ela se desenvolva completamente.

Foi provavelmente o momento em que o Cine Joia mais se transformou em uma celebração.

Mas existe uma ironia nisso.

Quanto maior o sucesso da música, maior também fica a comparação com o passado.

E “I Ran” é justamente uma das canções em que a diferença entre o Mike Score de ontem e o de hoje fica mais evidente.

Uma banda que não precisa pedir desculpas pela idade

Seria injusto transformar a idade dos músicos em defeito.

O A Flock of Seagulls não precisa reproduzir 1982. Nenhum artista precisa.

O problema não é a idade. É a falta de uma abordagem que compense o que inevitavelmente se perdeu com o tempo.

Uma banda veterana pode reduzir o tom, alterar arranjos, criar novas dinâmicas, reinventar músicas ou simplesmente assumir que está apresentando uma leitura contemporânea de seu próprio repertório.

No Cine Joia, houve pouco disso.

A apresentação preferiu a segurança.

E segurança demais pode ser inimiga do rock.

A atual encarnação do A Flock of Seagulls também carrega uma realidade inevitável: apenas Mike Score permanece como elo principal com a formação que gravou os discos clássicos. Pando, Kevin Rankin e Gord Deppe são músicos competentes, mas a química de uma formação histórica não pode ser reproduzida simplesmente colocando novos integrantes no lugar dos antigos.

Isso fica especialmente claro porque o repertório pertence a uma época em que a interação entre os músicos originais fazia parte da identidade sonora da banda.

O peso de uma boa discografia

Ainda assim, seria um erro sair do Cine Joia dizendo que o A Flock of Seagulls não tem mais importância.

Tem.

E muita.

A banda foi fundamental para uma determinada concepção de new wave em que o pop podia ser futurista sem perder a capacidade de produzir melodias memoráveis. O diálogo entre sintetizadores, guitarras e baixo continua reconhecível e influente.

Além disso, Mike Score ainda mantém uma ligação com a criação musical. Some Dreams, lançado em 2024, mostrou que o grupo não está completamente interessado em viver apenas de seu passado.

Mas, ao vivo, o passado ainda é o protagonista.

O setlist deixa isso evidente: “Modern Love Is Automatic”, “Hearts on Fire”, “Nightmares”, “The More You Live, the More You Love”, “Transfer Affection”, “Telecommunication”, “Space Age Love Song”, “Wishing” e “I Ran” formam praticamente uma retrospectiva dos momentos mais importantes da primeira fase da banda.

O público sabia disso.

E talvez seja justamente essa a razão pela qual o show funcionou melhor para quem já chegou ao Cine Joia com uma relação afetiva com aquelas músicas.

Foi um show para os fãs.

Não necessariamente para quem esperava descobrir uma grande banda de palco em 2026.

A memória ainda funciona

No fim, A Flock of Seagulls entregou aquilo que seus fãs provavelmente esperavam: as músicas que construíram sua reputação e a presença de Mike Score diante de uma plateia brasileira que esperou décadas por esse encontro.

Mas entregou pouco além disso.

A apresentação foi correta, por vezes monótona e excessivamente dependente da força do repertório. A voz de Score já não tem o mesmo fôlego, a comunicação ficou mais nas mãos de Pando e a banda raramente conseguiu criar a sensação de urgência que esperamos de um show de rock.

Por outro lado, quando as grandes músicas apareceram, ficou impossível negar o tamanho da obra.

“Space Age Love Song” continua linda. “Wishing” continua emocionante. E “I Ran” continua sendo um hino.

Talvez esse seja o paradoxo do A Flock of Seagulls em 2026: a banda já não consegue reproduzir completamente a energia de seu passado, mas suas melhores músicas continuam capazes de reproduzir a sensação de uma época inteira.

No Cine Joia, o público não estava apenas assistindo a uma banda.

Estava encontrando uma memória.

E, para alguns, isso foi suficiente.

Setlist — A Flock of Seagulls

Cine Joia, São Paulo — 7 de outubro de 2026

  1. Modern Love Is Automatic
  2. Hearts on Fire
  3. Rainfall
  4. Nightmares
  5. Him
  6. The More You Live, the More You Love
  7. Transfer Affection
  8. Say You Love Me
  9. Lovers and Strangers
  10. Some Dreams
  11. Man Made
  12. Telecommunication
  13. Space Age Love Song
  14. Wishing (If I Had a Photograph of You)
  15. I Ran
  16. BIS: Messages

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