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Fat Dog – Cancel Me (I’m Tired): caos, rave e provocação sem freio

Segundo álbum do grupo de South London amplia a mistura de punk, techno, rock e música de pista, mas também expõe uma questão que a banda ainda não resolveu: até onde o caos consegue sustentar uma boa composição?

Há bandas que querem ser compreendidas. Há bandas que querem ser levadas a sério. E há o Fat Dog, que desde o início parece ter decidido que nenhuma dessas duas coisas é necessária.

Em Cancel Me (I’m Tired), segundo álbum do grupo de South London, a proposta continua sendo transformar música em uma espécie de descarga física: guitarras, sintetizadores, saxofone, batidas eletrônicas, vocais gritados e mudanças abruptas de direção. É música para o corpo antes de ser música para a cabeça — e, em seus melhores momentos, isso funciona extraordinariamente bem.

O problema é que, em alguns momentos, a banda parece confundir espontaneidade com falta de acabamento.

Lançado em 2 de outubro pela Domino, Cancel Me (I’m Tired) reúne dez faixas e chega depois de um período em que o Fat Dog passou de fenômeno de clubes e festivais britânicos a uma das bandas alternativas mais comentadas de sua geração.

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Do lockdown ao caos

A história do Fat Dog começa durante o lockdown. Joe Love, vocalista e principal compositor, começou a produzir músicas eletrônicas sozinho em casa, em meio à frustração provocada pelo isolamento. A ideia inicial era fazer algo deliberadamente exagerado, físico e divertido — música para dançar, pular e liberar energia acumulada.

O projeto foi transformado em banda quando Love reuniu músicos de South London. A formação passou por algumas mudanças, mas nomes como Johnny “Doghead” Hutch, Chris Hughes e Morgan Wallace ajudaram a definir a identidade do grupo. Hutch ficou particularmente conhecido por tocar usando uma máscara de cachorro de látex, imagem que rapidamente virou parte da mitologia da banda. (AllMusic)

Antes mesmo de lançar um álbum, o Fat Dog já havia construído uma reputação como banda ao vivo. O público ganhou até um nome próprio — “The Kennel” — e os shows se transformaram em uma mistura de pista de dança, roda punk e espetáculo de absurdo.

O primeiro grande cartão de visitas foi “King of the Slugs”, uma faixa de sete minutos que condensava boa parte da fórmula: techno, punk, rock pesado, elementos de música klezmer e uma estrutura que parecia mudar de personalidade várias vezes durante a mesma música. A faixa acabou sendo o primeiro lançamento do grupo pela Domino.

Em setembro de 2024 veio WOOF., o primeiro álbum. O disco dividiu opiniões justamente porque aquilo que funcionava de maneira explosiva no palco nem sempre tinha a mesma força em estúdio. Ainda assim, músicas como “King of the Slugs”, “Wither”, “All the Same” e “Running” deixaram claro que havia ali uma banda tentando desmontar as fronteiras entre pós-punk, rave, industrial e rock.

E Cancel Me (I’m Tired) nasce exatamente dessa contradição.

Uma banda que não quer pensar demais

O Fat Dog nunca escondeu que sua música pretende ser mais instintiva do que intelectual. A própria banda já descreveu sua proposta como o oposto da “música para pensar”.

No segundo álbum, essa filosofia continua evidente.

A faixa-título é um bom exemplo. A música parte de uma pulsação eletrônica pesada e coloca Joe Love diante de uma produção que parece construída para um clube em estado de colapso. Há referências que vão de John Lennon ao rock psicodélico da Anatólia, mas o resultado não é uma colagem acadêmica de influências: é uma música que quer avançar, bater e continuar avançando. A própria banda relacionou a composição a How Do You Sleep?, de Lennon, e à ideia de imaginar o grupo turco Altın Gün cercado por uma batida de pista.

É justamente aí que o Fat Dog é interessante.

Eles não estão tentando reviver o pós-punk. Estão tentando desmontá-lo.

“Smile and Wave” e a lógica do excesso

“Smile and Wave” abre o álbum já deixando claro que não haverá uma entrada discreta.

A composição trabalha com mudanças de direção, enquanto a produção empilha camadas de sintetizadores, bateria e elementos eletrônicos. O Fat Dog parece interessado em fazer cada faixa soar como se pudesse perder o controle a qualquer momento.

Essa sensação é reforçada por aquilo que a banda chama de “modular songwriting”: a utilização de diferentes partes e ideias musicais para construir uma mesma faixa.

O método explica parte da estrutura fragmentada de músicas como “Smile and Wave” e ajuda a entender por que o álbum parece constantemente mudar de marcha.

Mas também é sua principal fragilidade.

Às vezes, a mudança parece uma escolha composicional. Em outras, soa simplesmente como uma ideia interrompendo outra.

O melhor momento: “Shit Love”

Se existe uma faixa que demonstra o potencial do Fat Dog quando a provocação encontra uma boa composição, é “Shit Love”.

A música abandona parte do caos permanente e encontra um groove muito mais convincente. Há uma energia que remete ao Madchester, mas atravessada pelo peso eletrônico do Prodigy e pela estranheza pop dos Gorillaz.

É uma combinação improvável, mas funciona.

Mais importante: a música tem forma.

Não depende apenas de volume, distorção ou repetição para funcionar. Existe uma ideia melódica que permanece depois que a faixa termina.

É exatamente isso que falta em alguns outros momentos do álbum.

“Snakes” mostra outro caminho

“Snakes” também merece destaque porque o Fat Dog desacelera e permite que outra personalidade apareça.

A faixa assume uma atmosfera de western psicodélico, com assobios e acordes menores que criam uma sensação quase cinematográfica.

É um dos momentos em que a banda demonstra que pode fazer mais do que simplesmente acelerar tudo até o limite.

Essa capacidade é importante porque o Fat Dog corre um risco evidente: se todas as músicas precisam parecer o equivalente sonoro de uma multidão enlouquecendo em um festival, o impacto inevitavelmente diminui.

O contraste é que mantém o caos interessante.

Quando a provocação vira fórmula

E aqui está o ponto mais delicado de Cancel Me (I’m Tired).

O humor de Joe Love continua deliberadamente vulgar, absurdo e infantil. Isso faz parte da identidade do Fat Dog. Não há problema em uma banda querer ser estúpida, debochada ou grotesca.

O problema aparece quando a provocação deixa de produzir surpresa.

Algumas frases parecem existir apenas para provocar uma reação imediata. Funcionam no meio de uma multidão, com centenas de pessoas gritando juntas, mas perdem força quando retiradas desse contexto.

É uma diferença fundamental entre uma boa música de festival e uma boa música de álbum.

O Fat Dog é excepcionalmente bom na primeira.

Ainda está tentando provar que consegue ser igualmente convincente na segunda.

“Bad Dog”, “Heart of Darkness” e “Aliens”

“Bad Dog” retoma o lado mais eletrônico da banda e aposta em uma estrutura construída para repetição. É provavelmente uma das músicas que mais facilmente pode funcionar ao vivo, justamente pela simplicidade de seu refrão.

“Heart of Darkness”, por outro lado, mostra uma faceta mais convencional. É um rock mais reconhecível, menos interessado em desmontar gêneros. Não é ruim, mas também não possui a mesma personalidade de “Shit Love” ou “Snakes”.

Já “Aliens” fecha o álbum de maneira surpreendentemente diferente. A faixa abandona boa parte da agressividade anterior e permite que o disco termine em um território mais atmosférico.

É uma decisão inteligente.

Depois de quase quarenta minutos de excesso, o Fat Dog finalmente permite que o ouvinte respire.

O Fat Dog está evoluindo?

Sim — mas não necessariamente da maneira convencional.

WOOF. era a apresentação de uma banda que precisava provar que sua loucura tinha algum valor além do espetáculo. Cancel Me (I’m Tired) mostra um grupo mais confortável com suas próprias possibilidades e disposto a expandir o vocabulário.

O segundo álbum tem mais variedade.

Há mais eletrônica, mais psicodelia, mais melodias, mais espaço para referências externas e uma tentativa mais evidente de transformar o caos em composição. A própria Domino descreve o disco como uma combinação de electro-pop, rave, rock, psicodelia e passagens inspiradas pelo western.

Mas ainda existe uma distância entre ter muitas ideias e saber exatamente o que fazer com elas.

O Fat Dog tem as ideias.

Tem energia.

Tem personalidade.

Tem uma das melhores propostas de palco da atual cena britânica.

O que ainda precisa desenvolver é a capacidade de fazer com que cada uma dessas qualidades sobreviva quando as luzes do palco se apagam.

Veredicto

Cancel Me (I’m Tired) não é um álbum perfeito — e provavelmente seria estranho se fosse.

O Fat Dog nasceu justamente da recusa em fazer música comportada, previsível ou excessivamente calculada. O problema é que a mesma liberdade que produz momentos brilhantes também cria faixas que parecem esboços ampliados até o tamanho de uma canção.

Quando o grupo encontra o equilíbrio entre rave, punk, rock e melodias, o resultado é genuinamente excitante. Quando depende apenas do choque, do palavrão ou da repetição, a fórmula fica evidente.

Ainda assim, seria um erro reduzir o Fat Dog a uma banda de brincadeira.

Por trás do barulho existe uma capacidade real de combinar gêneros que normalmente não dividiriam o mesmo espaço. “Shit Love”, “Snakes”, “Cancel Me (I’m Tired)” e “Aliens” mostram uma banda começando a descobrir que o caos pode ser mais interessante quando existe algum controle por trás dele.

O Fat Dog ainda é melhor visto ao vivo do que ouvido no sofá.

Mas Cancel Me (I’m Tired) deixa uma pista importante: talvez a banda finalmente esteja aprendendo a transformar sua reputação de animal selvagem em algo mais difícil — composição.

Faixas

  1. Smile and Wave
  2. Go Fuck Urself
  3. Cancel Me (I’m Tired)
  4. Heart of Darkness
  5. Shit Love
  6. Call It What You Want
  7. Snakes
  8. Bad Dog
  9. The Devil
  10. Aliens

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