GILLA BAND – Pugnello: O Caos Como Forma de Expressão
O quarto álbum da banda irlandesa transforma ruído, distorção e ritmos inquietos em uma experiência musical tão desconfortável quanto fascinante.
Há discos que procuram agradar pela melodia, outros que apostam na força das letras e alguns que encontram sua identidade justamente na recusa de oferecer qualquer conforto ao ouvinte. Pugnello, quarto álbum do Gilla Band, pertence à última categoria. Lançado pela Rough Trade em setembro de 2026, o trabalho reafirma a vocação do quarteto de Dublin para desmontar as estruturas convencionais do rock e reconstruí-las a partir de ruídos, ritmos fragmentados e uma estranha combinação de agressividade e humor.
O resultado não é simplesmente um álbum barulhento. É um disco que entende o ruído como linguagem, transformando aquilo que normalmente seria considerado um elemento indesejável da gravação em seu principal instrumento de expressão.
Desde Holding Hands With Jamie (2015), o Gilla Band, anteriormente conhecido como Girl Band, vem desenvolvendo uma sonoridade que aproxima o noise rock do pós-punk, da música industrial e da eletrônica experimental. Em The Talkies (2019) e Most Normal (2022), essa investigação ganhou contornos cada vez mais extremos. Agora, em Pugnello, a banda demonstra que a experimentação não precisa significar ausência de direção. Pelo contrário: por trás da aparente desordem existe um trabalho minucioso de composição, produção e manipulação sonora.
Entre a violência sonora e a precisão rítmica
A abertura com “The Angelus” estabelece imediatamente o território do álbum. As guitarras de Alan Duggan Borges parecem perder sua função tradicional, abandonando acordes reconhecíveis em favor de texturas ásperas e massas sonoras que se chocam contra a bateria acelerada de Adam Faulkner. Em vez de conduzir o ouvinte por uma progressão familiar, a música cria uma sensação de instabilidade permanente.
É uma escolha estética que poderia facilmente resultar em monotonia. O Gilla Band, entretanto, encontra maneiras de fazer o desconforto evoluir. Pequenas mudanças de intensidade, interrupções abruptas e variações rítmicas alteram constantemente a percepção da música. O que inicialmente parece uma parede indistinta de som revela camadas e detalhes que só aparecem depois de algumas audições.
O baixo de Daniel Fox é fundamental nesse processo. Enquanto as guitarras investem na desfiguração do som, suas linhas introduzem movimentos que aproximam determinadas faixas da música de pista. Não se trata de transformar o Gilla Band em uma banda de dance music, mas de explorar a tensão entre o impulso físico do ritmo e a resistência das texturas.
Essa dualidade aparece com clareza em “Placeholder”. A faixa combina uma base instrumental insistente com uma interpretação vocal que parece oscilar entre a conversa cotidiana, a provocação e o descontrole. As referências de Dara Kiely à infância e a elementos da cultura popular introduzem um componente de absurdo que impede a música de se tornar uma demonstração de agressividade pela agressividade.
O Gilla Band sabe que o inesperado pode ser tão poderoso quanto o volume. E, frequentemente, é mais engraçado.
Dara Kiely entre o absurdo e a vulnerabilidade
Uma das características mais interessantes de Pugnello está na maneira como as letras de Dara Kiely convivem com a violência instrumental. Seu estilo nunca dependeu da eloquência convencional do rock. Em vez de desenvolver narrativas lineares, o vocalista trabalha com fragmentos de pensamento, associações improváveis, trocadilhos e observações que parecem ter surgido de uma conversa que o ouvinte começou a escutar pela metade.
Em outros contextos, esse método poderia soar como uma coleção de excentricidades sem propósito. Aqui, ele se torna parte essencial da identidade do disco.
Kiely alterna o humor absurdo com momentos de exposição pessoal, abordando de maneira mais direta sua experiência com a saúde mental. Em “Alogia”, por exemplo, a referência explícita à esquizofrenia coloca a vulnerabilidade humana no centro de uma música que, instrumentalmente, parece determinada a desintegrar qualquer sensação de estabilidade.
O contraste é decisivo. A voz não funciona apenas como mais um elemento a ser distorcido ou escondido na mixagem: ela carrega uma experiência individual que dá outra dimensão à agressividade do conjunto.
Não há necessidade de transformar essas confissões em explicações definitivas para a música. O mérito do Gilla Band está justamente em não reduzir a complexidade emocional a uma narrativa simples de sofrimento e superação. A experiência pessoal aparece fragmentada, contraditória e, em alguns momentos, deliberadamente engraçada.
Esse humor também impede que o álbum se torne excessivamente solene. Kiely parece compreender que o absurdo faz parte da experiência humana tanto quanto a angústia. Seus trocadilhos e referências inesperadas não anulam a seriedade dos temas abordados; tornam a coexistência entre o desconforto e o cotidiano ainda mais convincente.
O corpo também escuta
Se existe uma qualidade que diferencia Pugnello de muitos discos experimentais, é sua capacidade de produzir uma resposta física.
A música do Gilla Band não exige apenas atenção intelectual. Ela provoca reações corporais: tensão, inquietação, vontade de se movimentar e, ocasionalmente, o desejo de interromper a audição. A banda explora esse território sem abrir mão do controle sobre suas composições.
Em “Three Hands Clapping”, as camadas vocais e a instrumentação se acumulam até criar uma sensação de saturação. Já “The Megazord” explora timbres eletrônicos deliberadamente desagradáveis, como se os equipamentos estivessem à beira de uma falha. Em ambos os casos, o desconforto não é um acidente de percurso, mas parte do desenho musical.
A experiência também depende do modo como o grupo trabalha o silêncio relativo. Ao reduzir a intensidade em determinados momentos, o Gilla Band prepara o terreno para que o retorno do ruído tenha um impacto maior. A dinâmica entre contenção e explosão impede que a distorção se torne apenas um efeito repetitivo.
Essa atenção aos detalhes ajuda a explicar por que o álbum funciona melhor quando ouvido como um conjunto, e não apenas como uma sucessão de momentos extremos. Existe uma arquitetura por trás da aparente desordem, com os quatro integrantes negociando constantemente o espaço entre seus instrumentos.
Em “Giraffe”, essa lógica ganha outra dimensão. A música expõe o lado autoconsciente da banda, que não tem dificuldade em brincar com as próprias referências e reconhecer as influências que ajudaram a moldar sua identidade. Em vez de apresentar a experimentação como uma busca por originalidade absoluta, o grupo demonstra que também é possível encontrar liberdade na autocrítica.
“Crisp Pop” e a recusa de qualquer normalidade
“Crisp Pop” é um dos momentos mais reveladores do álbum porque concentra várias das características que tornam o Gilla Band tão particular. A estrutura rítmica é imprevisível, as guitarras parecem disputar espaço com a percussão e os vocais de Kiely se transformam em fragmentos sonoros que nem sempre permitem acompanhar imediatamente as palavras.
Ao mesmo tempo, a faixa incorpora referências à cultura pop britânica e associa bandas de britpop a sabores de batatas fritas. A ideia poderia parecer uma piada passageira, mas funciona como uma provocação sobre a própria maneira como classificamos a música popular.
O Gilla Band não precisa abandonar o humor para afirmar sua ambição artística. Tampouco precisa demonstrar seriedade por meio de letras herméticas ou de uma sonoridade permanentemente sombria. A irreverência faz parte de sua estratégia de desestabilização.
É nesse ponto que Pugnello se distancia de boa parte do rock alternativo contemporâneo. Em um cenário no qual a experimentação frequentemente é apresentada como um acabamento estético aplicado a composições relativamente convencionais, o quarteto irlandês coloca a própria estrutura da canção em questão.
Isso não significa que o grupo rejeite completamente a ideia de música acessível. O baixo cria movimentos reconhecíveis, a bateria estabelece pulsos físicos e algumas passagens parecem construídas para provocar uma reação imediata. O que a banda recusa é a obrigação de transformar esses elementos em uma fórmula previsível.
A acessibilidade, quando aparece, é quase um efeito colateral.
Um disco que não confunde experimentação com improviso
O maior triunfo de Pugnello está em sua capacidade de conciliar espontaneidade aparente e rigor técnico. Embora o álbum possa soar caótico em uma primeira audição, suas texturas são cuidadosamente organizadas. A própria banda assumiu a produção do trabalho, com Daniel Fox responsável pela mixagem, reforçando a importância do estúdio na construção de sua identidade sonora.
Essa dimensão é fundamental para compreender o disco. As guitarras não estão simplesmente altas, a bateria não está apenas acelerada e os vocais não são deliberadamente estranhos por uma questão de estilo. Cada elemento contribui para uma composição em que a percepção do ouvinte é constantemente colocada à prova.
Há, naturalmente, um limite para essa abordagem. A insistência na abrasividade pode tornar determinadas passagens exaustivas, e a densidade das texturas nem sempre permite que cada ideia alcance a mesma força. Para quem procura melodias imediatamente reconhecíveis ou refrões capazes de permanecer na memória após uma única audição, o álbum oferece poucas concessões.
Mas exigir do Gilla Band a mesma lógica de uma banda tradicional de guitarras seria ignorar justamente aquilo que torna sua música interessante.
Pugnello não busca eliminar o caos. Busca organizá-lo sem retirar sua capacidade de surpreender.
Veredicto
Com Pugnello, o Gilla Band não precisa reinventar completamente sua linguagem para demonstrar evolução. O quarteto aprofunda as ideias que vêm desenvolvendo desde o início da carreira e encontra novas maneiras de relacionar ruído, ritmo, humor e vulnerabilidade.
O álbum é agressivo sem depender exclusivamente da agressividade, experimental sem se tornar uma demonstração fria de técnica e pessoal sem transformar a experiência de seu vocalista em uma explicação simplista para cada escolha musical.
Sua maior qualidade está em fazer com que elementos aparentemente incompatíveis coexistam: o ruído e a dança, a angústia e a piada, a precisão e a sensação de descontrole. Essa combinação dá ao disco uma personalidade que não depende de tendências passageiras nem da nostalgia por alguma era específica do rock alternativo.
Não é um álbum que procura conquistar o ouvinte pela familiaridade. Ele exige aproximação, atenção e disposição para aceitar que a música pode ser desconfortável sem deixar de ser envolvente.
No fim, Pugnello reafirma o Gilla Band como uma das propostas mais instigantes do rock experimental irlandês contemporâneo. Um disco que encontra sua própria forma de beleza naquilo que outras bandas tentariam corrigir: a fricção, a instabilidade e o prazer de não saber exatamente o que virá a seguir.
.
