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Fontaines D.C. em Madrid: a tensão de “I Love You” e a explosão de “Starburster” definem a noite

No Movistar Arena, em 22 de outubro, o quinteto irlandês percorreu 21 músicas, conectando a urgência de seus primeiros discos à experimentação de Romance. A escolha de abrir com Vic Chesnutt e encerrar com Nancy Sinatra e Lee Hazlewood deu personalidade a um repertório que fugiu do roteiro mais óbvio.

O Fontaines D.C. não é uma banda que se explica facilmente por meio de rótulos. Chamar o grupo de pós-punk é correto, mas insuficiente para descrever o que acontece quando a aspereza de suas primeiras composições encontra as melodias mais amplas de Romance. Foi esse contraste que deu interesse ao repertório apresentado no Movistar Arena, em Madrid, na noite de 22 de outubro.

Com 21 músicas, o setlist percorreu diferentes fases da carreira sem transformar a apresentação em uma retrospectiva previsível. A sequência colocou lado a lado a urgência de Boys in the Better Land, a construção melódica de Jackie Down the Line e a atmosfera de In the Modern World. O resultado, considerado a partir dessas escolhas, é o retrato de uma banda que ampliou suas possibilidades sem abandonar a inquietação que a tornou relevante.

A abertura com Sponge, de Vic Chesnutt, já diferenciou a apresentação de um show organizado para entregar imediatamente seus maiores sucessos. É uma escolha que pede atenção ao repertório para além da própria discografia e estabelece uma relação com outras tradições da música alternativa. Em seguida, Tongue e Here’s the Thing prepararam o caminho para Nabokov e Boys in the Better Land, duas músicas que remetem à faceta mais incisiva do grupo.

É em Boys in the Better Land que fica mais evidente o que o Fontaines D.C. ainda preserva de sua origem. A guitarra nervosa, a sensação de movimento contínuo e a escrita de Grian Chatten transformam a canção em algo mais do que um exemplo eficiente de rock acelerado. Há uma inquietação social e emocional que impede a música de soar como simples exercício de estilo.

Lançada em Dogrel, em 2019, a faixa continua sendo uma referência fundamental para entender a identidade da banda. O interessante é perceber como ela permanece relevante dentro de um repertório que já não depende exclusivamente daquela fórmula.

De Dogrel a Romance: a banda mudou, mas não perdeu as arestas

A sequência de Marianne, Jackie Down the Line, You Miss Me e Roman Holiday introduziu diferentes nuances no repertório. O Fontaines D.C. sempre teve um lado literário, mas sua evolução musical tornou as composições menos dependentes da repetição e da urgência das guitarras. As melodias passaram a ocupar mais espaço, enquanto os arranjos ganharam novas camadas.

Jackie Down the Line, de Skinty Fia (2022), é um bom exemplo dessa transição. A canção tem um apelo melódico imediato, mas conserva uma inquietação que impede qualquer leitura excessivamente confortável. O Fontaines D.C. consegue ser acessível sem parecer domesticado — uma diferença importante em uma cena na qual muitas bandas acabam suavizando justamente os elementos que as tornaram distintas.

Essa transformação fica ainda mais clara em In the Modern World e Favourite, de Romance (2024). O álbum ampliou a linguagem do grupo, aproximando algumas faixas de uma estética cinematográfica e incorporando uma produção mais expansiva. Em vez de abandonar o passado, a banda passou a trabalhar com contrastes mais complexos.

In the Modern World representa o lado mais atmosférico dessa fase. Favourite, por sua vez, demonstra que o grupo pode construir uma canção de apelo melódico sem cair na previsibilidade do indie rock convencional. As duas músicas ocupam lugares importantes no repertório porque mostram que a evolução do Fontaines D.C. não depende de negar suas origens.

Para mim, esse é o ponto central da trajetória do quinteto: a banda não precisa escolher entre a aspereza de Dogrel e a amplitude de Romance. Sua identidade está justamente na tensão entre essas duas possibilidades.

“I Love You” continua sendo uma das músicas fundamentais do grupo

A parte final do repertório reuniu algumas das escolhas mais expressivas da discografia. Japan abriu o encore, seguido por I Love You, uma das composições mais contundentes de Skinty Fia.

A força de I Love You está na maneira como a música conecta sentimento pessoal, identidade nacional e contradição. Não é uma canção que oferece conforto ou uma conclusão simples. Sua escrita carrega uma tensão que se acumula ao longo da composição, enquanto a interpretação vocal de Chatten ocupa um espaço entre a declaração íntima e a denúncia.

É uma das músicas que melhor explicam por que o Fontaines D.C. ultrapassou os limites de uma banda associada a uma cena específica. Existe uma dimensão política em sua obra, mas ela não aparece separada da experiência emocional. O que torna I Love You tão poderosa como composição é justamente a dificuldade de separar essas duas coisas.

Na sequência veio Starburster, talvez a expressão mais evidente da transformação sonora apresentada em Romance. A música trabalha com uma pulsação insistente, uma interpretação vocal fragmentada e uma produção que flerta com a eletrônica sem perder a tensão física do rock. Em vez de simplesmente repetir os códigos do pós-punk, o Fontaines D.C. usa essas referências como ponto de partida para construir algo próprio.

A presença de Six Shot Morning antes da última faixa também ajuda a evitar um encerramento inteiramente previsível. O grupo não organizou o encore apenas em torno de seus títulos mais conhecidos, reservando espaço para uma escolha que amplia o panorama do repertório.

Nancy Sinatra e Lee Hazlewood encerram a noite

A última música foi Some Velvet Morning, composição de Nancy Sinatra e Lee Hazlewood. É uma escolha que merece destaque porque desloca o encerramento para outro universo musical, marcado por uma atmosfera psicodélica e por um diálogo vocal bastante particular.

Em vez de fechar com uma declaração definitiva sobre a própria identidade, o Fontaines D.C. escolheu uma canção que carrega sua própria história e deixa espaço para outras interpretações. A decisão combina com uma banda que parece cada vez menos interessada em permanecer dentro das fronteiras de um gênero.

Não é possível deduzir apenas pelo setlist como a versão foi executada, mas a escolha funciona como conclusão conceitual para uma apresentação que começou com Vic Chesnutt e terminou com Nancy Sinatra e Lee Hazlewood. As duas referências ajudam a situar o grupo em uma tradição alternativa mais ampla, na qual a composição e a personalidade artística importam tanto quanto a filiação a uma cena.

Outro detalhe do repertório foi a dedicatória de Happy for You a “Professor Rosa”, por Carlos. A informação acrescenta um elemento pessoal à sequência, embora não haja contexto suficiente para determinar a história por trás da homenagem.

Um show que coloca a evolução do Fontaines D.C. em perspectiva

O que torna o repertório de Madrid interessante não é apenas a presença de músicas importantes, mas a possibilidade de observar como elas se relacionam. Boys in the Better Land e Starburster representam extremos diferentes da trajetória do grupo: uma preserva a urgência que marcou sua chegada, enquanto a outra aponta para uma linguagem mais fragmentada e experimental.

Entre essas duas músicas existe uma banda que aprendeu a trabalhar com melodias mais abertas, atmosferas elaboradas e referências que ultrapassam o pós-punk. Ainda assim, a inquietação permanece. O Fontaines D.C. continua interessado em canções que não se resolvem facilmente, mesmo quando se tornam mais acessíveis.

A apresentação no Movistar Arena reuniu 21 faixas e percorreu esse caminho sem depender exclusivamente da nostalgia. A abertura com Sponge e o encerramento com Some Velvet Morning deram ao repertório uma moldura diferente, enquanto I Love You e Starburster destacaram duas das direções mais fortes da discografia.

O Fontaines D.C. já não precisa provar que sabe fazer pós-punk. Seu desafio agora é continuar encontrando novas formas de expressar a tensão que sempre esteve no centro de sua música. O setlist de Madrid sugere que essa busca permanece aberta — e é justamente isso que torna a evolução do grupo mais interessante do que uma simples história de sucesso.


Fontaines D.C. — Setlist

Data: 22 de outubro de 2026
Local: Movistar Arena, Madrid, Espanha
Turnê: D.C. EU Tour 2026

Set 1

  1. Sponge (Vic Chesnutt cover)
  2. Tongue
  3. Here’s the Thing
  4. Nabokov
  5. Boys in the Better Land
  6. Marianne
  7. Jackie Down the Line
  8. You Miss Me
  9. Roman Holiday
  10. In the Modern World
  11. Happy for You (dedicada a “Professor Rosa”, por Carlos)
  12. Big Shot
  13. Mimesis
  14. Bug
  15. Favourite
  16. Where Is Gone?

BIS

  1. Japan
  2. I Love You
  3. Starburster
  4. Six Shot Morning
  5. Some Velvet Morning (Nancy Sinatra & Lee Hazlewood cover)

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