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Hatchie – Liquorice: o verão infinito onde o shoegaze encontra seu brilho pop

Em seu terceiro álbum, Liquorice, Hatchie — nome artístico da australiana Harriette Pilbeam — abraça uma reinvenção sonora que soa tão natural quanto libertadora. Depois de flertar com estruturas pop mais tradicionais em Giving the World Away (2022), a artista mergulha de cabeça no shoegaze etéreo, nas guitarras distorcidas e na reverberação cintilante que marcaram Slowdive, Cocteau Twins e My Bloody Valentine. Só que aqui, tudo ganha um frescor ensolarado, leve, quase suspenso no ar.

O disco nasce em plena primavera australiana e carrega essa sensação em cada faixa. Composto entre Brisbane e Melbourne e finalizado no estúdio caseiro de Jay Som em Los Angeles, Liquorice é um álbum que parece gravado com o sol entrando pelas janelas, daqueles para se ouvir com o vento quente batendo no rosto. Pilbeam diminui a dependência de refrões óbvios, mas aumenta o domínio emocional de suas texturas — e o resultado é um trabalho maduro, coeso e profundamente atmosférico.

Faixas como “Only One Laughing” e “Sage” revelam um lado mais experimental, brincando com melodias pequenas e arranjos inventivos. Já “Wonder” traz guitarras densas à la Loveless e as junta com um brilho melódico que lembra o melhor do britpop — um encontro improvável que funciona com elegância.

Hatchie sempre esteve ligada ao dream pop, mas aqui ela demonstra pleno domínio do gênero enquanto o expande. “Anchor” é puro Cocteau Twins em estado de suspensão; “Lose It Again” homenageia com delicadeza bandas da borda do estilo, como The Sundays; e “Part That Bleeds” traduz romance e melancolia numa estética cinematográfica que poderia estar na trilha de uma cena de Richard Linklater.

A lírica de Pilbeam se mistura perfeitamente ao som: desejo, idealização, fuga, paixão e desilusão convivem sem esforço. O fechamento com “Stuck” rompe o encanto de forma abrupta e confessional — como quem acorda de um sonho doce e percebe que, apesar de tudo, a vida continua a mesma.

Liquorice pode dividir quem espera o maximalismo pop de seu disco anterior, mas revela Hatchie em seu elemento mais puro: melodias flutuantes, guitarras que abraçam e uma sensibilidade capaz de transformar influências históricas em algo novo, verdadeiro e profundamente seu. Um dos grandes discos dream pop do ano — e um marco em sua evolução artística.

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