Rosalía – Lux: um mergulho luminoso (e íntimo) na fé, na dúvida e na arte
Com Lux, seu novo álbum, Rosalía entra em um território que sempre rondou suas obras, mas nunca havia ocupado o centro da narrativa: a sua fé. Aos 33 anos, após redefinir a música pop com Motomami e explorar as fronteiras entre tradição e vanguarda, a artista catalã escolhe finalmente olhar para dentro — para as crenças que moldaram sua infância, suas contradições e sua busca espiritual constante.
O disco marca a primeira vez em que Rosalía aborda temas religiosos com clareza direta. As referências, antes sutis, agora se tornam estrutura: “Berghain”, parceria com Björk, nasce das visões místicas da abadessa do século XII Hildegard von Bingen; “Divinize” dialoga com símbolos bíblicos; e “God Is a Stalker” ousa imaginar Deus falando em primeira pessoa. No estúdio, um mapa-múndi recheado de alfinetes marcava cada santa pesquisada — um laboratório espiritual que virou som.
“Era como montar um grande quebra-cabeça”, contou a cantora. “Meu amor é plural e infinito, e queria colocar o máximo possível para que todos se sentissem acolhidos quando ouvissem este álbum.”
O resultado não soa como um exercício conceitual: é íntimo. Rosalía cresceu indo à igreja com a avó, ainda mantém o hábito de rezar todas as noites e lê a Bíblia regularmente — com destaque para o Evangelho de Mateus, seu preferido. “Tudo o que ele diz, para mim, são barras”, brinca, como se o texto sagrado tivesse flow próprio.
Essa espiritualidade também guia a forma como ela enxerga o mundo digital, suas tensões e cancelamentos. Rosalía defende uma cultura de perdão, de contradição assumida. Cita Roland Barthes e seu “anti-herói que suporta a contradição sem vergonha”, lembrando que ninguém — nem santos, nem artistas — vive isento de imperfeições. “Tento me manter conectada com minha missão: fazer música do lugar mais amoroso possível.”
Lux nasce, também, das cicatrizes que moldaram sua trajetória. Rosalía lembra da cirurgia nas cordas vocais aos 16 anos, da caminhada de 500 milhas pelo Caminho de Santiago aos 19, e do isolamento vivido durante os dois anos de criação de Motomami na Flórida. A fé, diz ela, sustentou cada um desses momentos.
No álbum, essa força aparece sem santificação — e sem censura. As mulheres que estudou para o projeto eram humanas: imperfeitas, contraditórias, mas profundamente devotas. Rosalía segue a mesma lógica, colocando perguntas na mesa em vez de tentar responder todas elas. A arte, para ela, é o espaço da dúvida.
Essa dualidade percorre todo o disco. O título Lux (do latim, “luz”) não é acidental: a luz só existe porque há sombra. Rosalía não celebra a escuridão, mas reconhece sua presença na vida real — e a usa para fazer o brilho ainda mais intenso.
Em Lux, Rosalía constrói um altar pop onde devoção, humanidade, fragilidade e força convivem. É seu trabalho mais vulnerável — e paradoxalmente, um de seus mais poderosos.

