FKA Twigs – Eusexua Afterglow: quando o pós-clube vira manifesto de liberdade sonora
Depois de incendiar 2025 com Eusexua, um dos trabalhos mais celebrados de sua carreira, FKA Twigs retorna quase sem dar tempo para respirar com seu inesperado — e ousado — álbum-irmão: Eusexua Afterglow. Se o disco anterior mergulhava na energia crua das pistas de techno de Praga, aqui Twigs acende uma nova luz sobre o “depois”: o corpo exausto, a mente elétrica, o coração vibrando entre prazer e delírio.
Originalmente pensado como um complemento deluxe, Afterglow cresceu, expandiu suas próprias atmosferas e se tornou um capítulo independente, revelando uma artista que se recusa a viver de confortos, prêmios ou expectativas. A britânica chega ao novo lançamento laureada por indicações ao Mercury Prize e sua primeira nomeação ao Grammy, mas continua a criar como quem dança no escuro: de forma intuitiva, visceral, sem pedir permissão.
No lugar da catarse emocional de Eusexua, Twigs entrega aqui um registro mais físico e carnal, onde os beats são mais agressivos, as texturas mais densas e o hedonismo ganha contornos futuristas. “Love Crimes” abre o caminho com uma pulsação subterrânea que parece sair diretamente de um porão industrial; “Hard”, por sua vez, brinca com dualidades — voz infantil, desejo explícito, percussão saltitante — prova de sua habilidade em tensionar o lúdico e o sensual sem perder a força.
Em “Sushi”, Twigs se joga no clima frenético dos bailes de Nova York, num dos momentos mais livres e divertidos de sua discografia. Já faixas como “Slushy” e “Cheap Hotel” deformam ritmos familiares até virarem delírio: garage distorcido, breaks que derretem, batidas que tropeçam de propósito, como quem atravessa a madrugada cambaleando — porém radiante.
Se Afterglow parece menos ferido e autobiográfico do que seu antecessor, é porque Twigs escolhe outro caminho: o da fantasia pós-clube, onde tudo é leve, brilhante e ligeiramente estranho. Não há aqui o peso emocional de músicas como “Sticky” ou o humor sombrio de “24hr Dog”, mas há um encanto próprio — um disco que serve mais para estender o prazer do que para processar a dor.
E ainda assim, o “lado B” de Twigs supera muito do que outros artistas entregam como obra principal. Eusexua Afterglow reafirma a cantora como uma força absoluta do pop experimental, capaz de transformar restos, rascunhos e sobras de estúdio em experiências que outras discografias inteiras não chegam perto de alcançar.
Talvez o álbum não tente superar Eusexua — e é justamente isso que o torna tão honesto. Twigs sabe que a festa não acaba quando a pista fecha; às vezes, ela só muda de lugar.
