There Is Beauty, There Already
“There Is Beauty, There Already”, de Sarathy Korwar, soa desde o conceito como um gesto de reposicionamento. Depois de anos trabalhando temas pesados – migração, identidade, colonialismo –, o artista decide colocar apenas os tambores no centro e perguntar o que eles podem dizer sozinhos.
Lançado pelo selo Otherland, o álbum traz dez faixas e cerca de quarenta minutos estruturados como uma suíte contínua para bateria e percussões, com intervenções eletrônicas criadas no Buchla Easel e o uso da voz como mais uma textura. O ponto de partida é simples e radical: deixar a percussão assumir tanto a função rítmica quanto a melódica. Korwar fala em “voltar para aquilo que eu conheço melhor – a bateria” e em “me apaixonar de novo pela percussão, expressando o quão melódica e emotiva ela pode ser”.
Esse deslocamento muda a escuta: o kit não mais sustenta outro solista — ele é o próprio centro. Críticos descrevem o álbum como hipnótico, guiado quase exclusivamente por ritmo, textura e dinâmica.
Os títulos reforçam a ideia de um percurso circular e perceptivo: “A Day Is A Cycle Of Drum Beats”, “We Won’t Go Searching” e “There Is Beauty, There Already” trabalham com repetição, retorno e a noção de que “a beleza já está ali”, sem necessidade de adornos externos. Não é uma coleção de faixas isoladas, mas um fluxo de improvisações rítmicas que formam um único arco.
Alguns títulos sugerem um percurso quase narrativo. “On A Perfect Day” e “We Take Things For Granted” apontam para um início luminoso, em que o “perfeito” é justamente o cotidiano ignorado. “Skin, Colour, Sun, Lover” e “Looking For A Ghazal” evocam corpo, afeto e tradição sul-asiática — sem recorrer à linguagem verbal dos discos anteriores; tudo é filtrado pelos tambores. No trecho final, “Is There Beauty?”, “Beauty Doesn’t Know What It Looks Like” e a faixa-título funcionam como variações filosóficas sobre um mesmo motivo: a beleza como algo que não depende de reconhecimento.
A impressão geral é a de um disco que vai afinando a atenção do ouvinte: começa mais aberto e declarativo, e torna-se progressivamente interiorizado, sustentado por nuances de acento, timbre e densidade rítmica.
Em comparação a More Arriving (2019) e KALAK (2022), There Is Beauty, There Already é um desvio deliberado. Os álbuns anteriores eram marcados por vozes, textos, samples e discussões explícitas sobre migração, futurismo sul-asiático e crítica ao colonialismo. Agora, Korwar abandona a tese para assumir um gesto: “ao contrário dos meus outros álbuns, que lidavam com temas pesados, este é um ato cru de me colocar em primeiro plano — deixar a bateria falar”.
Ele mesmo define o disco como um exercício ético: “reconhecer que a grama já é verde o bastante” — ou seja, perceber a beleza no que já existe e costuma passar despercebido. Assim, faz sentido que o foco recaia sobre a bateria: o instrumento que costuma ficar no fundo, sustentando o tempo, torna-se aqui o lugar onde a beleza se revela. O que antes era suporte vira discurso; o que era textura vira forma.
Os títulos “We Take Things For Granted”, “We Won’t Go Searching” e “There Is Beauty, There Already” sugerem uma espécie de pedagogia da escuta: não buscar um “além”, mas ouvir melhor o que já está dado.
Sem forçar interpretações que o artista não endossa, o disco — pelo que entrevistas e críticas indicam — soa como o trabalho de alguém em reencontro consigo: com o instrumento, com o prazer de tocar e com a confiança de que ritmo, sozinho, pode carregar drama, delicadeza e complexidade suficientes.
Não é um álbum “fácil” no sentido pop: não há refrões nem slogans. Mas, dentro do universo de Sarathy Korwar, é um trabalho maduro e concentrado, que recusa repetir a fórmula discursiva dos discos anteriores e aposta em um minimalismo percussivo cheio de intenção.
Se a pergunta implícita é “a percussão pode, sozinha, sustentar um álbum inteiro e ainda assim emocionar?”, There Is Beauty, There Already oferece a resposta: não só pode — talvez seja justamente aí que “a beleza já está”.

