Sigrid – There’s Always More That I Could Say
Sigrid sempre foi aquela artista capaz de transformar tempestades internas em pop cintilante — direta, transparente e desarmada, mesmo quando está erguendo refrões do tamanho de arenas. Em There’s Always More That I Could Say, seu terceiro álbum, a norueguesa volta com um trabalho que não busca apenas amadurecer seu som, mas também catalogar aquela fase turbulenta entre os vinte e poucos e o início da vida adulta, quando tudo parece urgente, ambíguo e emocionalmente em sobrecarga. Gravado entre Oslo e Londres, o disco soa como o reencontro de uma artista com suas próprias pausas: um pop que respira, observa e finalmente admite que não tem todas as respostas.
O álbum abre com “I’ll Always Be Your Girl”, um turbilhão elegante onde desconfortos afetivos são colocados sob luz neon. É pop acelerado, mas com uma sinceridade que fere — Sigrid canta como alguém que já decorou cada vício e virtude de quem ama, e agora tenta entender o que fazer com tudo isso. A virada para “Jellyfish” traz uma delicadeza inesperada: seu clima de leveza costeira evoca imagens de cafés litorâneos e relacionamentos que sobrevivem não por intensidade, mas por cumplicidade silenciosa.
A sequência “Do It Again” e “Kiss the Sky” empurra o disco para uma zona mais ardida, cheia de batidas firmes e melodias que piscam para o pop dos anos 2000 — um território onde Sigrid soa paradoxalmente mais solta. Já “Two Years” puxa o freio e mergulha num retro-pop quase pré-SAW, cheio de cores pastel e melodias que parecem resgatadas de fitas cassete encontradas no fundo de uma gaveta.
A segunda metade do álbum é onde Sigrid realmente se expande. “Hush Baby, Hurry Slowly” chega como o tipo de dance-pop que poderia dominar festivais: quente, calculado, mas emocionalmente carregado. “Fort Knox”, por sua vez, vira o olhar para dentro e transforma frustração acumulada em uma faixa quase catártica — pop de ruptura, pop de libertação.
O momento mais íntimo vem com a faixa-título, “There’s Always More That I Could Say”. Aqui, Sigrid abandona a grandiosidade e deixa que a vulnerabilidade fale alto. É um pedido de desculpas, uma revisão de consciência e uma oração pop sobre tudo aquilo que fica atravessado na garganta.
Quando o disco chega a “Have You Heard This Song Before”, uma suave infusão de Americana toma conta. Há algo de estradeiro, de maduro, de cansado — no melhor sentido. E “Eternal Sunshine” encerra o álbum com brilho melancólico, um folk-pop moderno com ecos Fleetwood Mac e uma pulsação que lembra The War on Drugs. É uma despedida, mas daquelas que deixam a porta entreaberta.
Como obra, There’s Always More That I Could Say funciona quase como um inventário emocional da artista: honesto sem ser indulgente, pop sem perder nuance, grandioso sem precisar gritar. Mesmo quem não se considera fã do gênero vai reconhecer a solidez da produção, a segurança vocal e o olhar lírico mais afiado.
Não é um disco perfeito, mas é, sem dúvida, o mais maduro da carreira de Sigrid — e talvez o que melhor define sua capacidade de fazer do íntimo algo universal. Se o pop contemporâneo anda carente de discos com personalidade própria, a Noruega acabou de entregar um dos mais fortes do ano.