Carrier — Rhythm Immortal (Modern Love, 2025)
Carrier — Rhythm Immortal (Modern Love, 2025)
Sob o novo pseudônimo Carrier, o britânico Guy Brewer — ex-integrante do duo Commix e conhecido por sua carreira solo como Shifted — estreia com o álbum Rhythm Immortal. O disco marca um afastamento definitivo das convenções do techno e do drum’n’bass que moldaram suas fases anteriores, abrindo espaço para uma arquitetura sonora mais tensa e escultórica. Brewer parece interessado menos em ritmo funcional e mais em impacto material: sons que se chocam, reverberam e se dissipam como matéria em movimento
Rhythm Immortal desacelera o ritmo e ganha densidade. Em vez da fórmula “batida + ambiente”, Brewer organiza impactos: batidas que soam físicas, quase humanas; reverbs que desenham o vazio; uma respiração interna no ritmo. A sensação é tátil e tridimensional — a percussão não apenas marca o tempo, mas ocupa espaço e cria uma ilusão de proximidade. É música que sugere pista sem se submeter a ela, movida por um impulso primal. A microestrutura rítmica de Rhythm Immortal é tão detalhada e orgânica que se torna difícil rotulá-la.
O álbum foi lançado pelo chique selo Modern Love, com a ambição de “virar o jogo” do que entendemos por “avançado” em música eletrônica. Lento, atmosférico, físico — quase um estudo de propriocepção em forma de álbum.
A recepção internacional situou Rhythm Immortal como um dos destaques do ano, celebrando justamente essa inversão de prioridades: menos pulsação de pista, mais coreografia do som no espaço. O consenso não se deve a um simples “efeito de novidade”, mas à maneira como Carrier reprograma a sensação de tempo — batidas, contragolpes, micro-silêncios — até que o ouvinte passe a sentir o pulso como fenômeno físico. É música eletrônica que parece feita de sangue, suor e pedra — imagem inspirada nas descrições mais precisas que a crítica tem usado para falar deste álbum.
Com oito faixas em cerca de 40 minutos, Rhythm Immortal mantém foco e concisão e persegue coesão: cada peça é um estudo de material, ataque, ressonância e resíduo. Não é uma coleção de singles — é processo. Na ordem, o disco constrói um arco que vai do choque granular inicial à rarefação final, sem perder a fricção que o define.
Rhythm Immortal é menos uma troca de identidade artística e mais um reposicionamento estético: Carrier toma o legado do DnB/techno como matéria, não como dogma, e entrega um álbum que se sente antes de se classificar.
Quando a pergunta é “o que ainda pode soar novo em 2025?”, a resposta aqui não está na forma futurista, mas no ofício: a lapidação microscópica do impacto, do silêncio e da reverberação — música de peso, ar e distância. Um dos melhores lançamentos eletrônicos do ano.

