Com Riviera, The Hellp firma o disco mais ousado da carreira
Com Riviera, seu aguardado segundo álbum, o duo de Los Angeles The Hellp deixa definitivamente para trás a fase de euforia indie-sleaze que os colocou no radar durante a cena Dimes Square. Em seu lugar, surge uma obra que troca o brilho artificial das noites intermináveis por uma estética mais dura, cinematográfica e emocionalmente precisa — um retrato de artistas que finalmente encaram a ressaca do próprio mito.
Formado por Noah Dillon e Chandler Ransom Lucy, o projeto sempre carregou a tensão entre performance e vulnerabilidade. Os primeiros lançamentos, impregnados de adrenalina e caos juvenil, ecoavam a energia frenética de uma Nova York feita de suor, pista de dança e descontrole. Mas ao longo dos últimos anos, o duo começou a convocar outros tipos de intensidade: a densidade emocional, a maturidade estética, a necessidade de desapegar da persona para encontrar algo mais verdadeiro.
Essa virada se concretiza plenamente em Riviera. Já nos primeiros segundos de “Country Road”, o álbum revela sua postura confessional. O clima é de madrugada longa, conversa entre amigos encostados na porta de saída do clube — melancolia luminosa envolta por eletrônicos que insistem em tremer, como se carregassem lembranças que não se deixam apagar. É um início que marca o tom: sombrio, introspectivo e inquietante.
Faixas como “New Wave America” e “Cortt” expandem esse território emocional, pintando um panorama de amadurecimento à força, onde a mitologia do excesso dá lugar a um retrato mais crú da identidade americana — fragmentada, cansada, mas ainda movida a nostalgia e desejo. Há uma sensação de amplitude, como se a banda estivesse abrindo janelas para deixar o ar finalmente circular.
O disco encontra seu coração pulsante em “Doppler”, momento em que a escuridão dá lugar a uma fagulha de esperança. Os sintetizadores explodem em direção ao céu, carregando letras que falam de saudade e renovação. É o momento em que The Hellp se permitem brilhar, mas com outra chama — menos teatral, mais humana.
Nos instantes finais, o duo relembra suas próprias origens. “Here I Am” acena à estética neon e ao noir elétrico que os apresentou ao mundo, enquanto “Live Forever”, faixa de encerramento, abraça a maturidade com honestidade crua. Repetindo “I don’t want to live forever”, Dillon transforma um mantra que, antes, talvez fosse irônico — agora, é confissão, aceitação e libertação.
Riviera não é apenas uma evolução: é o álbum em que o The Hellp decide sair do personagem e entrar na própria pele. Ao diminuir o ritmo e encarar as cinzas da festa, a dupla encontra um som mais nítido, mais sólido e finalmente seu. O resultado é um registro tenso, belo e carregado de lucidez — um capítulo que marca não só o fim de uma era, mas o início de um futuro onde a vulnerabilidade é força, não fraqueza.
