Big Thief – Double Infinity -Uma guinada surpreendente e espiritual dos queridinhos do indie
Ao longo da última década, o Big Thief construiu uma discografia marcada pela escuta atenta, pela fragilidade como força estética e por uma espiritualidade que nunca precisou ser anunciada. Em Double Infinity, sexto álbum do grupo, essa sensibilidade ganha novas formas e texturas. Adrienne Lenker aprofunda seu talento singular para transformar experiências íntimas em algo quase ritualístico, expandindo o alcance emocional da banda sem romper com a essência que a definiu desde o início.
Primeiro trabalho desde a saída do baixista de longa data Max Oleartchik, o disco marca uma fase de abertura radical. Influências new age e espiritualistas se infiltram na sonoridade do Big Thief, que amplia seu horizonte ao convidar colaboradores improváveis e inspirados, como o ícone do ambient Laraaji, além de amigos próximos como June McDoom, Alena Spenger e Hannah Cohen. O resultado é um álbum expansivo, caloroso e cheio de camadas, que soa coletivo sem jamais perder a intimidade que sempre definiu a banda.
O aspecto mais ousado — e potencialmente divisivo — de Double Infinity está em sua aposta na repetição como força expressiva. Em “Happy With You”, três versos simples (“I’m happy with you / Why do I need to explain myself? / Poison shame”) se repetem como um mantra. O que poderia soar minimalista demais ganha corpo graças a uma linha de baixo pulsante e a um coro que transforma a faixa em algo quase celebratório, hipnótico e profundamente afirmativo. Nem todas as tentativas funcionam com a mesma intensidade: “No Fear”, ao recorrer a um encantamento semelhante, carece do impacto emocional necessário para sustentar sua proposta.
Ainda assim, a clareza emocional do Big Thief permanece intacta. Em “Incomprehensible”, Adrienne Lenker reflete com delicadeza sobre o envelhecer físico em contraste com as pressões sociais: “The soft and lovely silvers are now falling on my shoulder”. Já “Words” ironiza a própria insuficiência da linguagem, apoiada por uma guitarra nervosa e rangente, quase em colapso.
Para quem associa o Big Thief a um clima acolhedor, quase de fogueira, Double Infinity pode soar mais amplo e arejado do que o esperado — e é justamente aí que reside sua força. As risadas que abrem “Los Angeles” dão lugar a guitarras grandiosas, enquanto a faixa de encerramento, “How Could I Have Known?”, narra o antes e o depois de uma perda devastadora. Quando Lenker confessa “I was alone in that moment / When I first met you”, sua voz é amparada por um coro coletivo, transformando dor individual em força compartilhada.
No balanço final, Double Infinity mostra que, para tudo o que o Big Thief deixou para trás, há ainda mais coisas conquistadas. É um disco elegante e surpreendente, que funde gêneros aparentemente distantes e expande os limites sonoros da banda — sem jamais abandonar a alma introspectiva que a tornou tão especial.
