Nick & June – New Year’s Face
Com New Year’s Face, o duo Nick & June apresenta um álbum de estreia que confirma a maturidade artística já sinalizada no EP Beach Baby, Baby (2023). Gravado sob uma estética lo-fi cuidadosamente construída, o disco traduz experiências pessoais de amor, separação e perda em canções que equilibram intimismo emocional e sofisticação sonora, posicionando o projeto com segurança dentro do indie folk contemporâneo.
Formado em Berlim por Suzie-Lou Kraft e Nick Wolf — ex-amantes que transformaram a intimidade compartilhada em matéria criativa —, o projeto se destaca pela forma como trata sentimentos universais sem recorrer a excessos dramáticos. Tudo aqui soa contido, quase sussurrado, como se cada faixa respeitasse o peso emocional que carrega. O lo-fi funciona menos como estética e mais como linguagem: ruídos, silêncios e texturas difusas constroem um espaço íntimo, onde a vulnerabilidade é central.
A faixa-título, New Year’s Face, abre o álbum envolta em uma névoa sonora delicada. A voz suave de Kraft — que pode evocar Lana Del Rey em sua fragilidade controlada — conduz uma composição que cresce lentamente, alternando introspecção e expansão emocional. É um começo que soa como despedida, marcando o tom melancólico do disco desde o primeiro verso.
Crying in a Cool Way surge em contraste, introduzindo sintetizadores etéreos e um brilho quase futurista. A canção flutua entre o sonho e a melancolia, oferecendo um dos momentos mais acessíveis do álbum sem comprometer sua densidade emocional. Logo depois, Dark Dark Bright puxa o ouvinte para baixo: Nick assume os vocais e imprime uma urgência silenciosa, transformando resignação em intensidade crescente. A faixa se expande até se tornar quase sufocante, mas nunca perde o controle.
Em 2017, a participação de Peter Silberman (The Antlers) adiciona uma camada extra de nostalgia. Sustentada por violões acústicos e harmonias abertas, a música reflete sobre a tensão entre apego ao passado e a necessidade de seguir adiante. As três vozes se entrelaçam com naturalidade, criando um dos momentos mais emotivos e humanos do álbum.
Anthem justifica plenamente o título. Com arranjos de metais assinados por Kyle Resnick e Ben Lanz (The National), a faixa alcança uma grandiosidade orquestral que remete ao espírito de High Violet. Ainda assim, o lirismo permanece introspectivo, abordando autoaceitação, fragilidade e identidade com uma honestidade desarmante.
O encerramento com Husband & Wife é sombrio e impactante. Escrita após a morte da avó de Suzie-Lou, a faixa abandona a suavidade habitual e aposta em uma interpretação vocal mais seca e direta. Os arranjos de Owen Pallett ampliam o drama, conduzindo o álbum a um desfecho que reflete sobre tempo, perda e a ilusão de controle sobre a própria vida.
Por trás de suas camadas difusas e produção contida, New Year’s Face revela um trabalho profundamente emocional e tecnicamente refinado. Nick & June entregam um álbum que conforta pela delicadeza e inquieta pela honestidade, transformando sentimentos íntimos em uma experiência quase sensorial. É um disco para ser ouvido sem pressa, permitindo que cada canção se dissolva lentamente — como um novo começo que ainda carrega as marcas do que ficou para trás.
