Deary mergulham no shoegaze com o épico single “Alfie”
O trio sul-londrino deary aprofunda sua devoção ao shoegaze no novo single “Alfie”, uma faixa de sete minutos e meio que antecipa o álbum de estreia Birding, com lançamento marcado para 3 de abril pelo selo Bella Union.
Formada durante o período de lockdown, a banda nasceu como um recomeço criativo para o guitarrista Ben Easton e a vocalista e guitarrista Dottie Cockram. Em meio a um mundo paralisado, o projeto surgiu como válvula de escape e ponto de reconstrução artística. A química entre os dois foi imediata, construída sobre camadas de guitarras etéreas, samples atmosféricos e uma linguagem musical compartilhada.
Entre as principais influências do grupo estão Loveless, do My Bloody Valentine, além de nomes como Radiohead, Portishead e Jeff Buckley. O impacto emocional e textural dessas referências ecoa diretamente em “Alfie”, que também dialoga com a atmosfera transcendental de Sigur Rós, especialmente na construção de crescendos catárticos.
Agora operando como trio ao lado do baterista Harry Catchpole, o deary demonstra maior segurança artística. “Alfie” foi a primeira música concluída durante as gravações de Birding e acabou se tornando o ápice emocional do disco. Estruturalmente mais ambiciosa que os lançamentos anteriores, a faixa se desdobra como um pop expandido — abrindo espaço para instrumentais brilhantes que privilegiam a sensação acima das palavras.
A banda também evoca a atmosfera de escutar Slowdive ou Cocteau Twins pela primeira vez: uma experiência de peso e leveza simultâneos, em que o som parece suspender o corpo do chão.
Embora o título “Alfie” tenha começado de forma despretensiosa — inicialmente inspirado por um cachorro — a canção evoluiu para algo mais simbólico. A letra aborda a fragilidade da vida, o luto e a gratidão agridoce de sentir intensamente. É sobre perda, mas também sobre a beleza inevitável de ter algo a perder.
Se “Alfie” for a porta de entrada para o universo do deary, ela já deixa claro que o trio encontrou sua identidade dentro da catedral sonora do shoegaze: expansiva, emotiva e autenticamente própria.
