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Morrissey revisita seu drama pessoal em Make-Up Is a Lie

Depois de mais de quatro décadas como uma das figuras mais singulares do rock britânico, Morrissey retorna com Make-Up Is a Lie, seu 14º álbum solo. O disco surge cercado por expectativas e controvérsias — algo que, aliás, se tornou quase inseparável da trajetória do ex-vocalista do The Smiths. O resultado é um trabalho irregular, que alterna momentos de inspiração musical com escolhas líricas e conceituais que acabam minando parte do seu potencial.

Musicalmente, ainda há muito a reconhecer. Make-Up Is a Lie percorre um terreno relativamente eclético, misturando pós-punk, new wave elegante, ecos de chanson e até alguns toques de pop mais polido. Aos 66 anos, Morrissey continua cantando com autoridade: sua voz permanece aveludada, dramática e imediatamente reconhecível, carregando aquele tom melancólico que sempre equilibrou ironia, romantismo e desencanto.

Mas ouvir Morrissey em 2026 não é mais uma experiência simples. Em vez de mergulhar nas canções e se deixar levar pelo drama sentimental que marcou sua obra clássica, o ouvinte frequentemente sente que está caminhando por um terreno instável. A pergunta inevitável surge a cada nova faixa: trata-se de sarcasmo, provocação calculada ou convicção absoluta?

Essa ambiguidade aparece logo na abertura, “You’re Right, It’s Time”. A música combina guitarras sombrias, sintetizadores sinuosos e um baixo pulsante para sustentar uma letra em tom de confronto. Morrissey critica a censura e reafirma seu desejo de falar sem restrições — uma referência indireta às tensões com sua antiga gravadora, a Parlophone, que se recusou a lançar uma de suas músicas mais controversas após o Manchester Arena bombing de 2017. É o Morrissey combativo de sempre: alguém que se apresenta como outsider mesmo enquanto continua atraindo multidões.

Esse jogo entre vulnerabilidade e provocação acompanha o cantor desde os anos 1980. Sua persona sempre funcionou nesse equilíbrio delicado entre confissão emocional e ressentimento, o que explica por que a relação com fãs e críticos costuma oscilar entre fascínio e frustração.

Quando o álbum se concentra mais na música do que na polêmica, seus melhores momentos aparecem. A faixa-título, “Make-Up Is a Lie”, traz uma atmosfera quase teatral, com percussão marcante, arranjos de cordas e um clima dramático que remete ao romantismo sombrio que consagrou Morrissey. A letra sugere um encontro em Paris e parece ecoar referências literárias, possivelmente evocando figuras como Simone de Beauvoir.

Outro destaque é o cover de “Amazona”, clássico do Roxy Music liderado por Bryan Ferry. Livre do peso de suas próprias letras, Morrissey se destaca como intérprete, conduzindo a melodia com uma elegância grandiosa que lembra por que ele permanece um dos vocalistas mais distintivos do rock alternativo.

“Headache” também chama atenção. Com andamento lento e atmosfera quase trip-hop, pontuada por xilofone e guitarras cortantes, a faixa resgata o Morrissey mestre das anti-canções de amor. O sarcasmo elegante da letra lembra seus melhores momentos de cinismo romântico.

Infelizmente, o disco também apresenta alguns dos momentos mais problemáticos de sua discografia recente. “Notre-Dame” se perde em teorias conspiratórias sobre o incêndio da famosa catedral parisiense, prejudicando uma música que poderia ter sido mais memorável. Já “Zoom Zoom the Little Boy”, com versos que listam animais a serem salvos, soa excessivamente ingênua e quase infantil, tornando-se uma das faixas mais estranhas do álbum.

Há também uma ironia curiosa em “Lester Bangs”, homenagem ao lendário crítico musical Lester Bangs. Enquanto Morrissey celebra a crítica musical na canção, muitos críticos continuam tentando conciliar o talento do artista com a figura pública controversa que ele se tornou.

No fim das contas, esse talvez seja o verdadeiro dilema de Make-Up Is a Lie. Seria fácil ignorar o disco se a criatividade de Morrissey tivesse desaparecido por completo. Mas isso não aconteceu. Em seus melhores momentos, ele ainda demonstra a capacidade de escrever melodias elegantes e interpretações que capturam o ouvinte com intensidade emocional.

O problema é que o próprio Morrissey frequentemente parece sabotar esses momentos. Make-Up Is a Lie confirma duas verdades que convivem na carreira do artista: sua voz e seu instinto musical ainda têm força, mas sua persona pública — e as ideias que insiste em vocalizar — continuam sendo o maior obstáculo para que seu talento brilhe plenamente.

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