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Prostitute –  Attempted Martyr 

Há álbuns que parecem ter sido criados para colocar o ouvinte dentro de um estado psicológico específico. Attempted Martyr, da banda Prostitute, é um desses.

É impressionante a maneira como a banda consegue transformar ansiedade política, ressentimento histórico, identidade cultural, paranoia e humor grotesco em uma experiência sonora coerente. Prostitute soa violentamente atormentada de um jeito muito particular. 

O álbum passa boa parte do tempo na fronteira entre o caos e o controle. À primeira audição, tudo parece prestes a desmoronar: guitarras que rangem como metal sendo torcido, bateria que avança sem pedir licença e vocais que alternam entre pregação, desespero e delírio. Mas, conforme Attempted Martyr avança, fica claro que existe uma arquitetura muito cuidadosa por trás dessa brutalidade. As músicas não são explosões aleatórias; são construções meticulosas disfarçadas de colapso.

O aspecto mais interessante, porém, talvez seja o conteúdo. O álbum não usa violência apenas como estética. Há uma tentativa constante de lidar com imagens de guerra, terrorismo, fanatismo religioso, racismo e a experiência árabe-americana após décadas de suspeita e demonização cultural. Em vez de explicar essas questões de maneira direta, a banda cria personagens, exageros grotescos e fantasias violentas. Isso faz com que o álbum pareça mais uma peça teatral expressionista do que um manifesto político.

Musicalmente, o álbum me faz pensar no que aconteceria se alguém reunisse uma intensidade quase insuportável (para alguns), uma sensação permanente de urgência e um gosto quase cinematográfico por imagens de horror psicológico, misturando tudo sem se preocupar muito com pureza de gênero. Ainda assim, o resultado final soa próprio. Mesmo quando é possível identificar influências, e isso realmente não importa, a personalidade da banda é evidente. 

Attempted Martyr não busca catarse fácil. Álbuns “pesados” podem funcionar como válvulas de escape: você entra tenso e sai aliviado. Attempted Martyr não oferece esse conforto. Ele parece mais interessado em manter a tensão viva. Quando termina, a sensação não é de resolução, mas de ter atravessado um ambiente emocional tóxico e saído dele um pouco mais consciente do seu peso.

Talvez por isso tantas pessoas descrevam a experiência em termos físicos. Em várias resenhas aparecem palavras como “exaustivo”, “visceral”, “esmagador”, “confrontador”. Concordo com todas, e acrescentaria outra: inquietante, porque ele faz parecer que o mundo que retrata não está distante. Ele está logo ali, do lado de fora da porta; dentro de nossos lares; e dentro da gente, como parte daquele mal-estar difuso que parece atravessar o planeta inteiro. 

No fim das contas, Attempted Martyr me parece menos um álbum sobre violência do que um álbum sobre viver sob a sensação permanente de que algo está prestes a dar errado, mesmo quando já deu. 

Obs: Attempted Martyr foi lançado independentemente pela banda em 2024, posteriormente licenciado à Mute, que passou a distribuí-lo e promovê-lo internacionalmente, culminando em uma ampla reedição física em 2026. 

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