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BDRMM E A ARTE DE REINVENTAR O ROCK ALTERNATIVO BRITÂNICO

Do ruído das guitarras de Bedroom à eletrônica inquieta de Microtonic, o quarteto de Hull constrói uma trajetória marcada pela experimentação, pela melancolia e pela recusa em permanecer preso a um único gênero.

Em um cenário musical no qual o shoegaze voltou a conquistar espaço entre novas gerações, algumas bandas conseguiram transformar a herança dos anos 1990 em algo próprio. O bdrmm, quarteto originário de Hull, no norte da Inglaterra, é um desses casos. Desde o início, o grupo demonstrou que as guitarras carregadas de efeitos, as melodias enevoadas e os vocais introspectivos poderiam servir como ponto de partida para uma pesquisa musical muito mais ampla.

Apesar da qualidade de seus discos e da disposição para renovar a própria identidade, o bdrmm ainda não alcançou o reconhecimento internacional proporcional à sua importância artística. É uma banda que conquistou respeito dentro do circuito alternativo britânico e entre apreciadores de shoegaze, dream pop e indie rock, mas permanece relativamente distante do grande público. Sua trajetória ajuda a entender como grupos inventivos podem construir uma discografia consistente sem necessariamente se transformar em fenômenos mundiais.

DO QUARTO DE RYAN SMITH À FORMAÇÃO DE UMA BANDA

A história começou em 2016, quando Ryan Smith deu início ao projeto bdrmm como uma experiência musical doméstica. O próprio nome é uma versão estilizada de bedroom, palavra inglesa para quarto, referência direta ao ambiente em que as primeiras ideias foram desenvolvidas.

O projeto individual cresceu e ganhou a estrutura de uma banda, com a participação do irmão de Ryan, Jordan Smith, além de músicos próximos. A formação passou por mudanças ao longo dos anos, mas manteve como característica central a combinação de guitarras atmosféricas, estruturas melódicas envolventes e uma abordagem que privilegia a construção de ambientes sonoros.

Nos primeiros lançamentos, o grupo chamou a atenção por recuperar elementos do shoegaze clássico sem simplesmente reproduzir a fórmula de bandas como Slowdive e My Bloody Valentine. Havia também ecos de post-punk, rock alternativo e krautrock, com uma insistência rítmica que impedia as canções de se dissolverem apenas em camadas de distorção.

O reconhecimento inicial veio com lançamentos independentes e a circulação de suas músicas no ambiente alternativo britânico. Em 2019, o bdrmm lançou o EP If Not, When? pelo selo Sonic Cathedral, referência importante para a cena shoegaze contemporânea. No ano seguinte, chegaria o primeiro álbum completo.

BEDROOM: A MELANCOLIA TRANSFORMADA EM SOM

Lançado em 2020, Bedroom estabeleceu as bases da identidade musical do bdrmm. O disco apresenta guitarras densas, reverberações prolongadas, melodias melancólicas e uma atmosfera que oscila entre a delicadeza do dream pop e a tensão do rock alternativo.

O álbum não depende apenas do volume ou da distorção para produzir impacto. Sua força está na maneira como os instrumentos se entrelaçam, criando uma sensação de movimento dentro de canções que parecem suspensas entre a introspecção e a explosão.

A estreia chegou em um momento particularmente difícil para a música ao vivo, com a pandemia interrompendo turnês e reduzindo as oportunidades de apresentação. Ainda assim, o disco ajudou a consolidar o nome do bdrmm entre os grupos britânicos que renovavam o interesse pelo shoegaze.

Bedroom também estabeleceu uma característica que continuaria presente nos trabalhos seguintes: a banda não trata a atmosfera como um simples recurso decorativo. O som é parte fundamental da narrativa das músicas, funcionando quase como uma extensão dos sentimentos que as letras procuram expressar.

O lançamento de The Bedroom Tapes, em 2020, ampliou esse universo com versões ao vivo e remixes, mostrando outras possibilidades para o repertório do grupo.

I DON’T KNOW: O PRIMEIRO PASSO PARA FORA DO SHOEGAZE

Em 2023, o bdrmm lançou I Don’t Know, seu segundo álbum, agora pela Rock Action Records, gravadora associada ao Mogwai. A mudança de selo acompanhou uma evolução artística que já começava a aparecer nas composições.

O disco preserva as guitarras e a melancolia da estreia, mas abre espaço para sintetizadores, texturas ambientais, ritmos eletrônicos e estruturas menos convencionais. Em vez de abandonar suas origens, a banda passa a tratá-las como um dos elementos de uma linguagem mais abrangente.

Faixas como “It’s Just a Bit of Blood”, “Be Careful” e “Pulling Stitches” ajudam a compreender essa transformação. As guitarras continuam importantes, mas deixam de ocupar sozinhas o centro da música. Os arranjos ganham novas camadas, e a tensão passa a surgir também dos contrastes entre ritmo, silêncio e textura.

A mudança foi significativa porque demonstrou que o bdrmm não pretendia permanecer confortável dentro de uma cena que já lhe oferecia reconhecimento. O grupo estava disposto a correr riscos, mesmo que isso significasse afastar parte do público que havia se aproximado por causa do shoegaze mais tradicional.

A partir desse momento, a eletrônica deixa de ser apenas um complemento para se tornar uma força criativa decisiva.

MICROTONIC: A CORAGEM DE TROCAR AS GUITARRAS PELA PISTA DE DANÇA

Lançado em 28 de fevereiro de 2025, Microtonic representa o movimento mais ousado da trajetória do bdrmm. Terceiro álbum de estúdio, o trabalho aprofunda a aproximação com a música eletrônica e transforma a experiência acumulada nos dois discos anteriores em uma sonoridade mais imprevisível.

Produzido por Daniel Avery, o álbum incorpora elementos de techno, acid house, drum and bass, ambient e música eletrônica experimental. As guitarras não desaparecem, mas passam a dividir o protagonismo com sintetizadores, batidas quebradas e linhas de baixo que remetem tanto às pistas de dança quanto às paisagens sombrias do rock alternativo.

A abertura com “Goit”, que conta com a participação de Syd Minsky-Sargeant, do Working Men’s Club, estabelece imediatamente o clima do disco. Batidas fragmentadas e uma atmosfera ameaçadora afastam o ouvinte da expectativa de encontrar mais um álbum convencional de shoegaze.

“Lake Disappointment”, um dos principais singles do trabalho, é um exemplo particularmente eficiente dessa combinação. A energia rítmica da música convive com a densidade atmosférica que marcou a primeira fase do grupo. O resultado não é uma simples conversão ao eletrônico, mas a incorporação de novas ferramentas à identidade já construída pela banda.

“John on the Ceiling” também se destaca ao aproximar a experimentação de uma estrutura mais direta. Já “Snares” combina ritmos quebrados e sintetizadores expansivos, enquanto “Infinity Peaking” preserva uma dimensão mais introspectiva, mostrando que a melancolia continua sendo um dos elementos centrais da escrita de Ryan Smith.

A faixa-título e “The Noose” ampliam a exploração de ambientes eletrônicos, com repetições, texturas e batidas que deslocam o bdrmm para um território no qual as fronteiras entre shoegaze, post-punk e música de pista se tornam cada vez menos definidas.

O título Microtonic remete aos microtons, intervalos sonoros menores que os semitons da escala musical ocidental convencional. A ideia funciona como uma metáfora para o próprio disco: a banda procura possibilidades nos espaços entre categorias estabelecidas, evitando soluções fáceis e previsíveis.

Nem todas as experiências precisam funcionar com a mesma intensidade para que a proposta seja relevante. O que torna Microtonic importante é justamente a disposição para explorar caminhos novos, sem transformar o passado em uma obrigação estética.

A discografia do bdrmm não se resume aos três álbuns. Os singles lançados ao longo dos anos ajudam a acompanhar a transformação de uma banda que nunca demonstrou interesse em repetir indefinidamente a mesma fórmula.

Entre os primeiros registros estão “Kare”, “The Way I Want”, “C” e “Heaven”, músicas que contribuíram para estabelecer sua presença no circuito independente. “Port”, lançado em 2021, ganhou novas dimensões com remixes de artistas como Daniel Avery e A Place to Bury Strangers, evidenciando o interesse do grupo em aproximar o rock de guitarras da música eletrônica.

Em 2022, “Three” manteve a atenção voltada para a construção de atmosferas, enquanto a sequência de lançamentos de 2023, incluindo “It’s Just a Bit of Blood”, “Be Careful” e “Pulling Stitches”, antecipou a ampliação sonora de I Don’t Know.

A transformação ficou ainda mais evidente com “Standard Tuning”, em 2024, e com os singles “John on the Ceiling”, “Lake Disappointment” e “Infinity Peaking”, ligados ao universo de Microtonic. As duas últimas faixas mostram diferentes faces da banda: de um lado, a pulsação eletrônica; de outro, a introspecção e a densidade emocional.

O mérito do bdrmm está em construir uma discografia na qual cada lançamento acrescenta alguma coisa à trajetória, sem que a evolução pareça uma estratégia calculada apenas para acompanhar tendências.

POR QUE O BDRMM AINDA NÃO ALCANÇOU O RECONHECIMENTO MUNDIAL?

A questão merece uma ressalva: o bdrmm não é uma banda desconhecida. O grupo recebeu atenção da imprensa musical especializada, lançou discos por gravadoras respeitadas e conquistou um público fiel. O que ainda não aconteceu foi a conversão desse reconhecimento crítico em popularidade internacional de grande escala.

Existem algumas razões possíveis para essa distância.

1. O shoegaze continua sendo um gênero de alcance relativamente específico.

Embora tenha voltado a despertar interesse, especialmente entre ouvintes mais jovens, o shoegaze ainda opera majoritariamente fora do centro do mercado pop. Mesmo bandas muito influentes dentro desse universo nem sempre alcançam a mesma exposição de artistas associados ao indie rock mais radiofônico.

2. A banda surgiu longe dos principais centros da indústria britânica.

Hull possui tradição cultural própria, mas está fora dos eixos mais evidentes de Londres e Manchester. Isso não impede o desenvolvimento de uma carreira internacional, mas ajuda a compreender o percurso de grupos que precisam construir sua audiência gradualmente, por meio de shows, imprensa especializada e circulação independente.

3. A música do grupo exige uma escuta mais atenta.

O bdrmm não depende de refrões imediatamente reconhecíveis ou de uma identidade visual facilmente transformada em produto. Sua música trabalha com camadas, texturas, atmosferas e mudanças graduais. São qualidades que podem gerar admiração duradoura, mas nem sempre produzem um sucesso instantâneo.

4. A evolução sonora dificulta o enquadramento comercial.

A banda começou associada ao shoegaze, mas passou a incorporar ambient, post-punk e eletrônica. Essa liberdade artística é uma virtude, embora também dificulte a definição de um público único. Quem procura apenas guitarras enevoadas pode estranhar Microtonic; quem chega pela música eletrônica talvez não conheça a profundidade de seus primeiros discos.

5. O reconhecimento da crítica não garante alcance popular.

Estar presente em publicações musicais importantes e receber avaliações positivas não significa, necessariamente, conquistar grandes audiências. A exposição depende também de turnês, distribuição, divulgação, playlists, oportunidades de festivais e de fatores comerciais que não estão inteiramente sob o controle de uma banda.

Não há como afirmar que uma única dessas razões explique a situação do bdrmm. Em conjunto, porém, elas ajudam a entender por que um grupo tão disposto a experimentar pode continuar sendo mais conhecido entre aficionados do que pelo público internacional em geral.

A IMPORTÂNCIA DE UMA BANDA QUE SE RECUSA A PARAR NO TEMPO

O bdrmm merece atenção não por representar uma tentativa de reproduzir a glória de uma cena musical do passado, mas por demonstrar que essa herança ainda pode produzir caminhos novos.

Bedroom apresentou uma banda capaz de trabalhar com a melancolia e a densidade do shoegaze. I Don’t Know ampliou os limites dessa linguagem. Microtonic levou a transformação adiante, aproximando o grupo da eletrônica sem apagar completamente suas raízes.

Essa trajetória também contraria a ideia de que uma banda precisa encontrar uma fórmula de sucesso e permanecer nela para construir uma carreira relevante. O bdrmm escolheu o risco da mudança, mesmo sabendo que a transição poderia afastar parte de seu público original.

Seu trabalho dialoga com uma tradição de artistas que encontram novas possibilidades na interseção entre guitarras e eletrônica, mas não depende apenas de referências conhecidas. Há uma identidade própria na maneira como o grupo combina inquietação, melancolia e ritmo.

Talvez o reconhecimento mundial não venha na escala que sua qualidade artística poderia justificar. Mas a importância de uma banda não se mede exclusivamente pelo tamanho das plateias ou pela posição nas paradas. Também está na capacidade de ampliar as possibilidades de um gênero e de oferecer novos caminhos a quem continua interessado em música feita com curiosidade e personalidade.

O bdrmm ainda tem espaço para crescer, e Microtonic mostra que a banda não pretende alcançar esse objetivo repetindo o passado. Em vez de buscar a segurança de um novo Bedroom, o quarteto prefere explorar territórios incertos. É justamente nessa disposição para mudar que reside uma das razões mais fortes para acompanhar sua trajetória.

Discografia essencial

  • Bedroom (2020)
  • I Don’t Know (2023)
  • Microtonic (2025)

Singles para conhecer a banda

  • “C”
  • “Port”
  • “Three”
  • “It’s Just a Bit of Blood”
  • “Pulling Stitches”
  • “John on the Ceiling”
  • “Lake Disappointment”
  • “Infinity Peaking”

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